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A mostrar mensagens de janeiro, 2018

O racismo invertido desconstruído

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Uma das mais significativas tomadas de posição em face do racismo historicamente instituído é a sua inversão. Esta inversão tende, correntemente, a aparecer como termostato do racismo biológico e cultural de longo-termo, uma espécie de maresia argumentativa que baliza o racismo e o suaviza -- os negros também são racistas, entre eles e face aos brancos. Ora, entre os negros não existe racismo, existem posições xenófobas resultantes de construções sociais sobre padrões culturais e étnicos. Não difere, portanto, da posição de superioridade que os franceses elaboram face aos demais. No entanto, o grau de xenofobia que se elabora entre negros é sobrevalorizada a favor desta argumentação ideológica, que propõe suavizar o racismo histórico.  A inversão racista, por seu turno, é uma elaboração muito mais refinada, porque quer fazer crer que há um ponto de partida comum, que não existe um caldo sociológico e histórico que condiciona e favorece tal inversão como resposta. Não podemos olhar esse...

A tal campanha da H&M

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Esta campanha da sueca Hennes & Mauritz, conhecida como H&M, deveria ser o suficiente para um processo criminal que levasse a empresa a pagar uma multa equivalente aos lucros de 2017. Não se trata de um pormenor, de um detalhe de campanha de somenos importância, um erro de marketing que se resolve com despedimentos. Há, aqui, um caldo histórico-sociológico cujos contornos não são de menor importância, ao aportar diretamente ao racismo biológico, a uma longa produção discursiva sobre racialidade, superioridade e segregação, cujos efeitos históricos permanecem fortemente veiculados nas sociedades ocidentais. A associação entre pessoas negras e os macacos fez escola na ideologia racial biológica e cultural, expressa na inferioridade moral, cultural e biológica dos negros, associando-os, através de elaborados esquemas de craniometria e de uma cientificidade racial, à predisposição para o crime, e para um tipo de pensamento religioso de natureza "mágica", distante dos padr...

Dois lados da Escravatura portuguesa

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A  Década Internacional de Afrodescendentes 2015-2024  tem servido, e bem, de pretexto para discutir coisas como o racismo biológico, o racismo institucional, e o racismo cultural, em países, como por exemplo, o nosso. Muitos mitos construídos a partir da narrativa ideológica dos brandos costumes vêm sendo descascados, revelando um caldo sociológico muito menos  clean  do que o desejado. Falar de afrodescendentes implica falar em escravatura, um crime gigantesco que macula a história de inúmeros países, com forte destaque para Portugal. Como em muitos outros assuntos, contudo, a escravatura tornou-se num tema ideológico, altamente politizado. Para uma elite afrodescendente atual a escravatura tem servido para, e à luz de padrões morais vigentes, para fazer política contra Portugal. Uma ideologia de ajuste de contas com a história que serve outros interesses. Embora historicamente justificada, esta posição não apenas passa ao lado da contextualização histórica, como é seletiva, porque i...

As ciências sociais nos cuidados paliativos

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A crise de 2008 trouxe um novo paradigma ao mercado de trabalho, baseado numa exploração "limpa", em que se promove o emprego remunerado abaixo do aceitável, ao mesmo tempo que se coloca pressão nos assalariados -- maquilhados de "colaboradores" -- para que redobrem o horário laboral. Esse fenómeno de taylorização selvática estendeu-se às universidades e à carreira científica. A produção científica esvaziou-se do seu conteúdo fundamental: a elaboração e amadurecimento teórico, passando a concorrer no mercado liberalizado dos  journals --  espaços onde se publica de graça e se paga para ler depois -- das métricas, das classificações e das indexações. O que conta, verdadeiramente, não é o que se diz, o que se acrescenta ao conhecimento e ao debate teórico, mas antes o número de  papers  que se publica e onde se publica. O que conta, no fundo, não são as letras mas o colorido das luzes de néon. O currículo constrói-se pelo número de vezes que se consegue dizer a mesma ...