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A mostrar mensagens de abril, 2022

E a luta de classes é luta de classes?

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Crescemos todos a ouvir falar na luta de classes, mesmo que não tenhamos convivido com a literatura ou a militância marxista. A ideia de luta de classes integrou a nossa transição para a Democracia e o nosso constitucionalismo. Este tempo volvido, vale perguntar se a nossa experiência democrática desde o 25 de Abril configura alguma luta de classes. Imperfeita e dispersa, em resultado do processo conturbado da sua feitura, mas também profundamente garantística e programática, a nossa Constituição traduz o projeto de harmonização ideológica que se quis para a sociedade portuguesa, tanto na sua feitura quanto nas suas revisões. Sem desconsiderar e deixar de impor os chamados “direitos de liberdade” (direitos, liberdades e garantias), i.e., os direitos herdados das revoluções liberais, marcados pela propriedade e iniciativas privadas e pela garantia da não-ingerência (dimensão negativa) do Estado na vida privada dos cidadãos, não deixou nem deixa de ser um texto constitucional que incorpo...

Lavrovsfora nada

Tomando em consideração as palavras de Lavrov, e tomando por boa a hipótese de que não é um falso discurso consciente, temos, então, muito claramente, duas narrativas dos acontecimentos e da História. Onde a União Europeia e a NATO vêem uma invasão e uma violação do direito internacional, na violação direta do direito de soberania e autodeterminação, a Rússia vê uma intervenção militar necessária, em virtude da Ucrânia se aproximar da NATO e assim deixar de integrar a área de influência russa, ao mesmo tempo que resgatam/salvam a região do Donbass, acabando com algo que é, no seu entendimento, uma abominação histórica: a Ucrânia. Para piorar, entendem que a NATO está a fazer uma guerra à Rússia por decreto. Dois mundos em confronto.

Da posição comunista

Os argumentos do PCP não são descabidos nem desprovidos de verdade. O problema não reside nesse facto, mas antes no alocamento da posição ao antiamericanismo elementar que faz deslizar a posição oficial do partido para um patamar de equivalência moral entre invasor e invadido. E isto é equivalente a dizer que uma vítima de violência doméstica estava mesmo a pedi-las, com o desleixo que tem com a casa e aquela minissaia, e que o papel de terceiros é o de promover a paz conjugal, não o de permitir a defesa da vítima. É claro que quando a vítima se defende implica uma escalada de violência. É o caminho ideal? Não, o ideal é a ausência de agressão. Mas perante o facto consumado não se pode tomar as partes por iguais, porque a vítima não precisa ser impoluta ou provida de beatitude para ser vítima.

de Le Pen ao Chega, um eleitorado além do racismo

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Ao entregar o discurso racial e etno-nacionalista a Zemmour, concentrando-se em sentimentos de revolta e em narrativas populistas mais transversais, Le Pen deixou evidente que a forma como se move na política é bem diferente do seu pai, sendo muito mais próxima do modelo da nova direita trumpista e brexista, portanto de ideologia de ocasião. E isto significa, queira-se ou não, uma capacidade política de entrar no eleitorado de esquerda radical, bem patente na intenção de voto de parte do eleitorado de Mélenchon. A literatura bem vem evidenciando que a adesão a discursos antisistémicos é resultado de uma ansiedade masculina branca de classe média-baixa e baixa (working-class) e suas famílias, para quem interessa mais a comida na mesa do que as lutas pós-materiais identitárias da nova esquerda burguesa. Quem não percebe isto vive numa redoma, não compreendendo que a racialização do outro é um fenómeno de longo-termo, inscrito nas ansiedades laborais dos sujeitos e não apenas no racismo b...

Mélenchon ou de como o eleitorado é fluído

Quase metade dos eleitores de Mélenchon estão disponíveis para votar em Marine Le Pen. Eu que não gosto de classificações imediatas e simplistas do tipo "são todos racistas", vejo neste fenómeno o reflexo do agudizar da instabilidade económica e da inflação resultantes da guerra (e com vocação para piorar, numa guerra sem fim à vista e que mexe com as estruturas do mercado global de energias e bens essenciais) e com ela do ressentimento resultante de uma perceção de abandono por parte de um Estado nas mãos de uma "elite". Isto porque em momentos de maior aflição económica e social as pessoas procuram vozes de protesto sobre comida na mesa, corrupção, e culpados salientes num "outro" que embora mais frágil é visto como o que vem roubar a última bolacha do pacote. É assim que se transita da esquerda radical para a direita autoritária, na promessa de dar voz ao povo. Bolsonaro e Trump, por exemplo, souberam jogar bem consigo através da ideia de uma esquerda u...

Disse Democracia Iliberal?

Tenho dificuldade em lidar com a ideia de "democracia iliberal", pois entendo-a não como um modelo político, mas como o resultado de uma figura autoritária ocupando o poder, limitado pela separação de poderes e pelo texto constitucional. É isto que é para mim Órban, um declarado inimigo da União Europeia que não se percebe porque ainda faz parte desta, a não ser para continuar a minar o projeto democrático europeu a favor do eixo autoritário em marcha. É que a democracia pressupõe a liberdade e a pluralidade, e os check and balances, não apenas o Estado de Direito e uma Constituição. 

O Ocidente é culpado do eixo mundial numa guerra de que Putin tem culpa.

Um dos possíveis cenários pós-guerra é o da divisão da Ucrânia em duas, uma oriental e outra ocidental, transferindo o muro de Berlim para ali. Embora não provável, para já, refletiria a visão putiniana do mundo, sabendo que para ele e os seus mais próximos a maior aberração foi o fim do mundo soviético. Este cenário traria o regresso de um grande mundo russo-oriental e o definitivo fim do fim da história. Se Putin é o evidente culpado a partir do mundo em que invade território soberano e o pretende assimilar, a verdade é que o mundo bipolar Ocidente/Oriente que se avizinha tem no Ocidente o maior responsável. O alinhamento da Rússia com a China e a Índia resulta do crescimento económico e estratégico desses países, em resultado, precisamente, do facto do Ocidente – para aumentar exponencialmente os lucros com uma mão-de-obra de baixíssimo custo – ter deslocado a indústria e até determinados serviços para aquelas paragens, aumentando a sua dependência e gerando um mundo global que só p...