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A mostrar mensagens de março, 2022

depois da guerra, a sombra

Precisamos ter presente que a extrema-direita europeia está a fazer da guerra na Ucrânia campo de treino. Depois dos escombros da guerra, de que não sabemos se veremos uma Ucrânia livre e democrática, teremos de lidar com uma extrema-direita na União Europeia cada vez mais forte, treinada, sedenta de poder, ansiosa por desmontar as instituições democráticas "em novo do povo", aproveitando a natural incapacidade do Estado Social prover a todos e ser já tomado como garantia. É por isso que precisamos que a direita democrática recuse o beijo venenoso desta direita com quem não partilham grande coisa e a esquerda mais radical perceba que o anti-ocidentalismo primário é um equívoco pavloviano, sob pena de passarem a representar exclusivamente causas concretas e sindicalismo residual, sem mais nenhuma capacidade de aderência social.  

reavivar a vocação europeia para a autossuficiência

Crises e conflitos bélicos tendem a permitir mudanças nos alinhamentos e programas políticos e económicos. A União Europeia, cimentada em valores inderrogáveis do Estado de Direito democrático, cujo princípio axiológico é a dignidade da pessoa humana, tem no atual quadro uma excelente oportunidade para redesenhar o seu programa de integração e posição geoestratégica. É evidente que não só podemos como temos de ter uma União Europeia mais forte, mais integrada, mais autossuficiente. Se em matéria militar e de defesa nos é vantajoso continuarmos alinhados com a NATO, não é de desconsiderar a hipótese de criação de um exército comum. Neste quadro, revela-se fundamental, portanto, rever as dependências externas. A Europa, pela diversidade que apresenta, tem condições para ser autossuficiente em inúmeras matérias, desde agrícolas a pecuárias, e de reduzir a dependência energética, imbróglio criado pela administração Merkel na crença de uma "Rússia connosco". No cômputo dos países ...

O umbigo de Putin pode ser o fim do nosso welfare state

A forma como Putin controla vários países das periferias da Rússia, como interfere no território africano, como interferiu ciberneticamente nas eleições americanas, no brexit e financiou e promoveu a extrema-direita europeia (enfraquecendo o projeto de Estado de Direito democrático liberal-social), não permite nenhum malabarismo teórico em que ele possa aparecer como alguém que está apenas a defender a integridade do seu território. Ele é e sempre foi alguém que desejou o controlo do grande espaço soviético, e que acredita num eixo oriental autocrático, com uma China capitalista e autoritária, exatamente igual ao seu regime.   E a solidariedade que nos atravessa, quanto mais tempo a guerra durar e quanto maiores os custos sociais, poderá ser poeira ao vento das necessidades urgentes. Corremos o risco de ver esta guerra prolongar-se e trazer efeitos económicos e sociais tremendos, com custos no Estado Social que nos acostumámos a viver e a ter saudades das suas falhas. Uma instabilidade...

"é porque são loiros de olhos azuis"

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A justificação de que a onda de solidariedade e apoio ao povo ucraniano resulta da sua condição de "loiros de olhos azuis" é simplista. É verdade que a condição "racial" dos ucranianos, bem como a filiação religiosa cristã, favorecem uma empatia, por exemplo, ao nível da Polónia. Mas há que reconhecer que o povo ucraniano é alvo de estigma e racialização (processo que ultrapassa características biológicas) em vários países da Europa, incluindo Portugal. Basta recordar a ausência de comoção nacional com o assassinato do cidadão ucraniano às mãos do SEF. Portanto, o que está aqui em causa é (i) uma rejeição de um regime e de uma figura (Putin) que causa a maior rejeição mundial atual, (ii) uma empatia geográfica por parte dos europeus que sentem que os acontecimentos são nas suas fronteiras, ou seja, são já ali, (iii) uma empatia resultante da proximidade de estilo de vida ("poderia ser eu"), e aqui sim, não podemos excluir reconhecimento biológico-racial, (...