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A mostrar mensagens de dezembro, 2022

OLHARES SOBRE A EMIGRAÇÃO

Portugal é um país de gente que parte em busca de melhores condições de vida. Gente que levava na mala de cartão os poucos pertences, ao peito a saudade e no bolso o bilhete. Por isso o português é um indivíduo que sabe o que é sair do país natal em busca de melhores condições de vida. Sempre foi, também, um país que acolhe bem. Mas, então, porque é um país que lida mal com a nova imigração? A justificação parece-me residir, muito antes e muito mais do que na xenofobia, no olhar sobre o que configura a emigração e o papel social do emigrante. Ao longo de décadas, os portugueses adotaram, fruto do fosso existente entre o Portugal do Estado Novo e do pós-25 de Abril e a Europa, da sua baixa escolaridade e ausência "de mundo", uma posição de acomodação aceitacionista, ou seja, habituaram-se a verem-se como residentes de empréstimo, cidadãos de segunda, com deveres e poucos direitos, em países que não eram os seus. Trabalhar e não dar nas vistas, era um lema de um povo habituado ...

LULA VENCEU, A DEMOCRACIA NÃO GANHOU E AMANHÃ NÃO SABEMOS SE O SABIÁ CANTA

(texto escrito na alvorada da vitória) Lula ganhou, mas não venceu. Os resultados deixam o país na mesma fissura e sem particulares hipóteses de reconciliação. É um país sem vasos comunicantes. Se o Senado é de forte expressão bolsonarista, com as presentes eleições vimos São Paulo eleger e Rio de Janeiro reeleger governadores de igual tendência, com Haddad, potencial sucessor de Lula a perder em território paulista e ficando sem capital político para o futuro. Nas ruas a narrativa do presidente-bandido prevalece entre o eleitorado branco, evangélico e de classe média. Os casos que indiciam corrupção, formação de milícia e violação de direitos humanos na era Bolsonaro não produzem efeito de afastamento de um eleitorado arregimentado. Uma vez mais, o Brasil é uma cópia adaptada dos EUA. Mesmo Lula tendo o apoio dos evangélicos moderados e de boa parte da elite económica e empresarial, facto que inviabiliza qualquer fantasia de venezuelização do país (que nunca ocorreu), a verdade é que ...

Brasil num clima tenso

A situação no Brasil permanece tensa. Bolsonaro fechou-se em casa por 20 dias, deixando a vida política e social do país à solta. Por todo o Brasil, as manifestações pedindo uma intervenção militar não arredam pé, alimentadas e alimentando um clima de conspiração golpista que reivindica fraude eleitoral. O PL, partido de Bolsonaro, entregou um pedido de verificação dos votos, com base num estudo de uma consultora externa privada, que levanta suspeitas sobre determinadas urnas, mas apenas no segundo turno eleitoral, o que expressa uma seleção de factos para compor uma narrativa de fraude e legitimar um golpe militar, que teima em não ter lugar, graças ao bom-senso das chefias militares do país.A alienação bolsonarista é uma ferida aberta no país, enraizada nas mais variadas teorias conspiratórias, preconceitos e fobias, em nada dizendo respeito à Democracia e ao Estado de Direito. À medida que se for aproximando a tomada de posse de Lula, o clima deverá agravar-se e podemos esperar esca...

Lula e a Floresta

O regresso de Lula ao cargo presidencial representa uma oportunidade para o Brasil regressar à cena internacional como parceiro privilegiado. Um dos pontos-chave atuais é a crise climática, e a consequente urgência de conservação da floresta amazónica, matéria que Bolsonaro desconsiderou, tendo aplicado um princípio contrário: procurando parceiros para explorar as riquezas, situação que caiu mal na cena internacional, numa altura em que havia já uma consciência global da necessidade de medidas ambientes volumosas. Com a economia e as finanças públicas estranguladas, o desafio de entregar os recursos à exploração é um canto de sereia. É por isso, que parece necessário que seja adotado um pagamento, por parte dos países mais ricos e pelos mais poluentes, de conservação da floresta amazónica, um incentivo essencial de preservação do pulmão do planeta.

Onda Conservadora

Portugal não poderia ser impermeável às guerras culturais. Debates sobre a memória histórica nacional e disputas sobre a moral social, entre uma esquerda é uma direita pós-materiais e identitárias, mobilizam a sociedade de forma contundente, derrogando o primado do chão comum democrático. Tal facto é progenitor de uma onda progressista, voltada à descolonização da cultura, à cidadania global e ao ativismo das minorias, e de uma onda conservadora, voltada aos valores idealizados da pátria, da família tradicional, da moral e bons costumes cristãos, com uma dose de fechamento ao pluralismo. Em Portugal, essa onda conservadora, inscrita sobretudo no Chega, recupera muito do imaginário de ser português edificado pelo Estado Novo. Curiosamente, verifica-se uma adesão em grande escala de jovens, mais do que oriundos de franjas brancas desfavorecidas, oriundos de classes sociais mais elevadas, que reivindicam uma identidade Deus, Pátria e Família para Portugal. Isto significa que o Chega tomou...

Recorde de alunos brasileiros em Portugal, no ensino superior

Sobre esta matéria tenho uma posição franca e sem estados de alma, que versa sobretudo sobre o ensino pós-graduado. Considero essencial que exista um mecanismo de ponderação em relação aos estabelecimentos de ensino, não apenas internacionais quanto nacionais. Um(a) aluno(a) da Universidade do Algarve não concorre em um mesmo pé de igualdade que um(a) da Universidade Católica, onde se praticam notas baixas. O mesmo se aplica ao prestígio e nível de exigência entre a USP (Universidade de São Paulo) e a Universidade Federal de Jataí. Ou entre esta última e a Universidade Católica Portuguesa. É por isso que o acesso é falseado em matéria de mérito. Enquanto não houver essa ponderação, alunos de universidades de menor prestígio, onde se praticam notas altas, ocuparão as vagas.

Brasil

A situação no Brasil permanece tensa. Bolsonaro fechou-se em casa por 20 dias, deixando a vida política e social do país à solta. Por todo o Brasil, as manifestações pedindo uma intervenção militar não arredam pé, alimentadas e alimentando um clima de conspiração golpista que reivindica fraude eleitoral. O PL, partido de Bolsonaro, entregou um pedido de verificação dos votos, com base num estudo de uma consultora externa privada, que levanta suspeitas sobre determinadas urnas, mas apenas no segundo turno eleitoral, o que expressa uma seleção de factos para compor uma narrativa de fraude e legitimar um golpe militar, que teima em não ter lugar, graças ao bom-senso das chefias militares do país. A alienação bolsonarista é uma ferida aberta no país, enraizada nas mais variadas teorias conspiratórias, preconceitos e fobias, em nada dizendo respeito à Democracia e ao Estado de Direito. À medida que se for aproximando a tomada de posse de Lula, o clima deverá agravar-se e podemos esperar esc...

A Europa

A sobrevivência do projeto europeu sempre foi ténue, mesmo no período de maior otimismo e euforia, e mesmo diante da integração política e monetária. Este facto torna-se premente numa altura em que se reflete e debate o seu alargamento a países que não reúnem os critérios necessários à adesão, e num contexto em que alguns países já integrantes invertem o seu rumo de democracia liberal-social em direção a regimes de tipologia illiberal-maioritarista, ao arrepio do primado da salvaguarda da pluralidade. Equacionar a adesão de países inaptos e claramente necessitados de apoio financeiro, cuja adesão visa, à partida, a obtenção de fundos, é meio caminho para a dissolução do projeto. É por tal prudente aceitar como razoáveis as propostas de Macron e António Costa de geometrias variáveis, com vários estágios de integração europeia.

referendos

O instrumento político do referendo suscita várias questões. Ocorrem-me as seguintes: (i) até que ponto representa um aprofundamento da democracia direta? (ii) de que modo se relaciona com o modelo de democracia parlamentar, sem subverter o primado da representação? (iii) até que ponto é meritório entregar a decisão sobre temas fracturantes à população (e suas redes de pressão), segundo o primado da maioria, sem com isso destapar o princípio da garantia da minoria?

deitar fora o bebé

A profissão de professor é cada vez menos atrativa, tanto pelo desgaste emocional que está associado à repetição dos procedimentos e ao lidar com crianças/adolescentes e sua natureza enérgica, quanto pelos baixos salários, colocações e a existência de situações de risco para a integridade. As reivindicações de direitos são legítimas. Mas depois há a instrumentalização da causa que faz perder simpatia popular. O aviso de greve mais recente é revelador disto mesmo, caindo no dia seguinte ao feriado e na semana seguinte, permitindo uma semana extra de férias de natal.

Um país comovido com a bola

O caso Cristiano Ronaldo é profundamente revelador do carácter nacional. Em primeiro lugar, Ronaldo sempre teve portugueses desdenhosos dos seus feitos desportivos, típicos invejosos que não podendo chegar ao sucesso não querem que ninguém lá chegue. Segundo, a comoção nacional por este enfrentar aquilo que todos os atletas de alta competição enfrentam — o fim da carreira em idade precoce — é sintoma de um messianismo estrutural, em que procuramos sempre alguém para elevar e divinizar. Terceiro, tal comoção com o processo de degradação natural em que se passa de titular a suplente, não teve paralelo com o duvidoso caso de compra de silêncio numa noite de sexo em Las Vegas, explicitando que aos nossos heróis nada se lhes pega. Quarto, as horas que se perde a falar de um jogador de futebol que em campo já não tem o mesmo rendimento, mas que é pecado estar no banco, revelam que o país dos três “f” está de boa saúde. Esta excitação e vigilância precisa ser levada para outros temas estrutur...

Um país comovido com a bola

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O caso Cristiano Ronaldo é profundamente revelador do carácter nacional. Em primeiro lugar, Ronaldo sempre teve portugueses desdenhosos dos seus feitos desportivos, típicos invejosos que não podendo chegar ao sucesso não querem que ninguém lá chegue. Segundo, a comoção nacional por este enfrentar aquilo que todos os atletas de alta competição enfrentam — o fim da carreira em idade precoce — é sintoma de um messianismo estrutural, em que procuramos sempre alguém para elevar e divinizar. Terceiro, tal comoção com o processo de degradação natural em que se passa de titular a suplente, não teve paralelo com o duvidoso caso de compra de silêncio numa noite de sexo em Las Vegas, explicitando que aos nossos heróis nada se lhes pega. Quarto, as horas que se perde a falar de um jogador de futebol que em campo já não tem o mesmo rendimento, mas que é pecado estar no banco, revelam que o país dos três “f” está de boa saúde. Esta excitação e vigilância precisa ser levada para outros temas estrutur...

Europa

A sobrevivência do projeto europeu sempre foi ténue, mesmo no período de maior otimismo e euforia, e mesmo diante da integração política e monetária. Este facto torna-se premente numa altura em que se reflete e debate o seu alargamento a países que não reúnem os critérios necessários à adesão, e num contexto em que alguns países já integrantes invertem o seu rumo de democracia liberal-social em direção a regimes de tipologia illiberal-maioritarista, ao arrepio do primado da salvaguarda da pluralidade. Equacionar a adesão de países inaptos e claramente necessitados de apoio financeiro, cuja adesão visa, à partida, a obtenção de fundos, é meio caminho para a dissolução do projeto. É por tal prudente aceitar como razoáveis as propostas de Macron e António Costa de geometrias variáveis, com vários estágios de integração europeia.

Brasil num clima tenso

A situação no Brasil permanece tensa. Bolsonaro fechou-se em casa por 20 dias, deixando a vida política e social do país à solta. Por todo o Brasil, as manifestações pedindo uma intervenção militar não arredam pé, alimentadas e alimentando um clima de conspiração golpista que reivindica fraude eleitoral. O PL, partido de Bolsonaro, entregou um pedido de verificação dos votos, com base num estudo de uma consultora externa privada, que levanta suspeitas sobre determinadas urnas, mas apenas no segundo turno eleitoral, o que expressa uma seleção de factos para compor uma narrativa de fraude e legitimar um golpe militar, que teima em não ter lugar, graças ao bom-senso das chefias militares do país.A alienação bolsonarista é uma ferida aberta no país, enraizada nas mais variadas teorias conspiratórias, preconceitos e fobias, em nada dizendo respeito à Democracia e ao Estado de Direito. À medida que se for aproximando a tomada de posse de Lula, o clima deverá agravar-se e podemos esperar esca...