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A mostrar mensagens de agosto, 2023

O beijo e o exibicionismo moral

O caso Rubiales tem sido explorado até à exaustão, explicitando um cruzamento entre machismo tóxico e exibição moral. Rubiales esteve muito mal, sobre isso não há a menor dúvida, manifestando uma cultura de impunidade e toxicidade masculina próprias de uma sociedade patriarcal. Por outro lado, o caso terá sido explorado ostensivamente pela imprensa, sobretudo por arrasto de um exibicionismo moral levado a cabo por puritanistas de uma nova ordem, alimentados pelo ego da exibição em praça pública.

"ou Trump ou morte"

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  Esta é a realidade nos EUA na era de Trump .  Tenho por profunda convicção que vivemos num período de desconsolidação da democracia liberal, donde sairá uma nova forma de democracia de feição illiberal, nos melhores casos, e regimes autoritários. Isto deve-se ao facto das gerações atuais não saberem o que é viver sem democracia liberal, pelo que têm pouco apreço pelo Estado de direito democrático liberal, e estão muito dados a soluções militares e autoritárias, em torno de homens providenciais. As redes sociais deram um forte impulso a esta realidade, fazendo da separação de poderes, das garantias de direitos fundamentais e de eleições livres algo irrelevante, sob ataque de populistas que se afirmam a voz do povo, desde que essa voz seja capturável por si, afirmando uma clara tirania da maioria. Eles são democratas, numa lógica baseada na ideia de que “é democracia quando eu mando e comando o povo”.

Purificar a Sociedade, um ímpeto

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A propósito da notícia que dá conta que a música "Fat bottomed girls" dos Queen foi  retirada da plataforma Yoto,  por ser "imprópria para crianças", ocorre-me dizer que v ivemos um tempo de um ímpeto purificador social, ou de outra forma: de vários ímpetos. Eles manifestam-se na tentativa de expurgar vícios “morais” na ânsia que criar uma sociedade nova, um jardim do Éden terreno, cuja materialidade doutrinária vai do radicalismo cristão que procura recriar uma sociedade do casal heterossexual que vai à igreja ao domingo, temente a Deus e odioso da diferença, até à Igreja da Nova Sociedade dos Reencantados do Mundo, que pretende proteger as crianças num mundo de “ursinhes carinhoses”. Ambos querem expurgar a sociedade uns dos outros, da diversidade de pensamento, vendo o mundo numa batalha espiritual entre o “bem e o mal”, num maniqueísmo primário, enquanto justiceiros, uns da justiça social e moral, mas pós-material, e outros da justiça moral onde o amor ao próxim...

31 mil novos milionários

A recente notícia de que Portugal viu o surgimento de 31 mil novos milionários poderia, à primeira vista, parecer uma tendência económica positiva. Afinal, o aumento da riqueza pessoal poderia sugerir um avanço no desenvolvimento do país. No entanto, essa estatística adquire um significado mais complexo quando consideramos o contexto em que ela se insere, considerando que o país permanece estruturalmente pobre e no qual o tecido empresarial do país encontra-se, ainda, pouco consolidado e diversificado, gerando uma economia vulnerável a oscilações. A coexistência de um número significativo de novos milionários com a manutenção de salários relativamente baixos é uma contradição preocupante. Os salários baixos não apenas produzem efeitos negativos no poder de compra dos cidadãos, mas também levam a um cenário de  "fuga" de quadros qualificados para oportunidades melhores no exterior.  O contraste entre a crescente riqueza pessoal e a persistente pobreza estrutural aponta para a ...

Todos, todos, todos

“Todos, todos, todos”. Foi o discurso do Papa Francisco. São palavras inclusivas e bonitas, e vão ao encontro do que seria a mensagem de Jesus. Mas a Igreja estruturalmente não é isso, e tem o direito a não o ser, enquanto   instituição autónoma. Se a Igreja Católica entender que as mulheres devem assumir uma posição subalterna e que as pessoas LGBT+ e trans são contranatura, está no seu direito, assim como tais pessoas não são obrigadas a aceitar o catolicismo como monopólio de uma ideia de verdade.

Francisco

As frases do Papa Francisco não são extraordinárias, são, até, frases próximas a muitas que circulam como frases inspiradoras no Instagram. O que difere é a sua simpatia, o seu lugar de fala como sumo-sacerdote católico, e a amplificação que lhe é dada pelas redes sociais em virtude desse status. Não retira, claro, valor a que as profira. O que é verdadeiramente significativo é o impacto da JMJ numa renovação espiritual da sociedade portuguesa,   cujos significados quotidianos e políticos teremos de avaliar futuramente.

Laicidade. JMJ

É necessário parar de se afirmar que o Estado é laico, sem perceber o que se está a dizer. O Estado é laico segundo o princípio da não-confessionalidade e da separação dos poderes. Por força da Lei da Liberdade Religiosa, o Estado relaciona-se com as confissões religiosas estabelecendo proximidades segundo uma lógica de proporcionalidade demográfica e enraizamento histórico. Além da figura jurídica da Concordata.