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A mostrar mensagens de abril, 2021

Craig Cobb e a supremacia branca 

A «supremacia branca» é uma ideologia baseada em postulados "científicos" do séc. XIX, como o evolucionismo e o determinismo racial, que estabeleciam uma hierarquia entre "raças" humanas, supondo uma associando direta entre cultura ocidental/racionalidade branca e superioridade. Aspetos "científicos" ligados a conceções biológicas e croniométricas , e matéria religiosa ligada ao monoteísmo , foram essenciais na construção de uma ideologia de superioridade racial branca, a qual deu origem ao projeto político de supremacia branca, cuja expressão máxima seria o genocídio negro, e a manifestação histórica contemporânea mais evidente foi o apartheid . É aqui que entra Craig Cobb, um homem branco de 62 anos, que é o rosto de uma iniciativa que visa transformar a cidade de Dakota do Norte, nos EUA, em um reduto para neonazis e supremacistas brancos. Ora, como a história da humanidade é muito mais fluída, híbrida, miscigenada que as narrativas ideológicas e os pro...

Baralhar e incluir. As cartas sem género.

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© REUTERS/EVA PLEVIER Indy Mellink desenhou umas cartas sem género, incentivada pela questão: porque um rei vale mais do que uma dama ? Ora, por princípio compreendo a importância da violência simbólica, dos significados da linguagem e dos símbolos na perpetuação de desigualdades. Mas isto é, também, produto de uma «nouvelle gauche» urbana, elitista, intelectual, que se encontra desligada do quotidiano, das lutas sociais e económicas. A concreta violência doméstica ou a desigualdade salarial não se resolvem com gestos simbólicos. Não é acendendo incensos, ou dizendo "querides", que os problemas sociais desaparecem. Este movimento pseudo-vanguardista começa a parecer-se com "não têm pão, comam brioche".  

FALEMOS DE MACHISMO SISTÉMICO

Falar de algo como «sistémico» ou «estrutural» significa reconhecer que esse fenómeno se encontra enraizado na nossa sociedade e que por tal condiciona os comportamentos individuais e sobretudo coletivos, prejudicando determinados grupos em função de outros. Significa, igualmente, que essa circunstância é, na maioria dos casos, inconsciente e atua na vida das pessoas desprotegidas de forma direta e ainda antes do seu nascimento, porque a sociedade é feita de assimetrias e a desigualdade de condições de partida impede que o mérito esteja fora das narrativas mitológicas burguesas-elitistas. É por isso que este conceito está associado ao racismo, porque nas sociedades ocidentais, fruto de uma longa história colonial, científica, religiosa, económica (escravatura e políticas laborais) e escolar, as populações negras (mas não só) foram objeto de inferiorização, marginalização, exclusão, situação que se reproduziu até aos dias de hoje com uma baixa mobilidade social ascendente, sucesso escol...

Os erros ortográficos são uma forma de inclusão?

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As desigualdades nas condições de partida são um problema nas condições de chegada em matéria escolar, ou seja, quem parte em vantagem económica e social tem maior probabilidade de obter sucesso. Empresas e universidades precisam ter isso em conta, adotando políticas inclusivas de correção de assimetrias. Uma das estratégias é a das quotas raciais, para migrantes e estrangeiros, com base nas capacidades destes. Agora, aceitar os erros ortográficos e afirmar uma condição de absoluta de machismo, elitismo e racialidade na qualidade da escrita não é apenas desrespeitoso para quem partindo de condições menos favoráveis consegue apresentar bons ou excelentes resultados, como uma via abertura para tornar a universidade numa fábrica de produção de licenciados. À medida que cresce a gramática do autoritarismo cresce a gramática da euforia da nouvelle gauche burguesa autoculposa.  

A "raspadinha" e a dependência

Como muito bem elenca Daniel Oliveira , 80% dos viciados em "raspadinhas" advêm das classes mais baixas da sociedade portuguesa, sendo um vício sem conotação social negativa, invisível e carente de regulamento de inibição. Esta situação deixa os mais vulneráveis economicamente e dependentes de um vício com a fatura de contribuir para o financiamento do património. No entanto, esta abordagem parece-me excessivamente paternalista -- um paternalismo de esquerda, de quem vestindo a casaca de operário, mas com estilo de vida de classe média, finge ser operário -- e enviesada pelo efeito tributário associado ao mesmo, revestindo o Estado de uma imagem de Sheriff de Nottingham. Se olharmos para o lado, para outro fenómeno de vício, o tabaco, percebemos também que este é, sobretudo, consumido pelas classes mais baixas da sociedade . O mesmo se aplica ao consumo de vinho de forma dependente, sobretudo por homens acima dos 50 anos e de condição económica e social vulnerável. Não sendo,...

A "RASPADINHA" E A DEPENDÊNCIA

Como muito bem elenca Daniel Oliveira , 80% dos viciados em "raspadinhas" advêm das classes mais baixas da sociedade portuguesa, sendo um vício sem conotação social negativa, invisível e carente de regulamento de inibição. Esta situação deixa os mais vulneráveis economicamente e dependentes de um vício com a fatura de contribuir para o financiamento do património. No entanto, esta abordagem parece-me excessivamente paternalista -- um paternalismo de esquerda, de quem vestindo a casaca de operário, mas com estilo de vida de classe média, finge ser operário -- e enviesada pelo efeito tributário associado ao mesmo, revestindo o Estado de uma imagem de Sheriff de Nottingham. Se olharmos para o lado, para outro fenómeno de vício, o tabaco, percebemos também que este é, sobretudo, consumido pelas classes mais baixas da sociedade . O mesmo se aplica ao consumo de vinho de forma dependente, sobretudo por homens acima dos 50 anos e de condição económica e social vulnerável. Não sendo,...