Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2021

A Ministra Sueca e o estigma social

A entrevista da Ministra das Finanças sueca destaca-se na afirmação de que estando um português ao lado de um sueco num hospital, em Portugal, o português terá pago impostos pelos dois, embora ambos gozem da mesma prestação de cuidados médicos. Estranha a Ministra que em Portugal não decorra daí uma comoção popular. Ora, sucede que apesar de conhecer as praias, os vinhos, o fado e os elementos turísticos nacionais, desconhece a personalidade de um povo que se revolta pouco, a não ser incitado por movimentos políticos populistas, para os quais o tema se revela enviesado. Ora, é aqui que a questão se torna particularmente interessante, uma que invoca um aspeto elementar da nossa perceção comum em torno da categoria «imigrante». Não obstante o contributo dos imigrantes ativos para a segurança social, a nossa sociedade organiza a legitimidade de vivência em Portugal e a dignidade em função da nacionalidade e do tom de pele. O imigrante é sempre aquele que vem de um país mais pobre, nunca o...

Solidário, mas racista?

Como um país tão solidário e que acolhe tão bem pode ser racista? É uma interessante e legítima pergunta, cuja resposta reside no passado, no paradoxo das relações coloniais, entre a Casa Grande e a Senzala, onde se mistura racismo violento, racismo cordial e miscigenação. São contradições nos termos que coabitam nas práticas, e para o qual o Estado Novo deu determinante contributo, ao construir a ideia de "Nação" à volta dos Descobrimentos. O processo foi tão bem desenhado, porque objeto de políticas públicas através do sistema de ensino, propaganda e outros recursos de um país colonial, que nunca mais o largámos, tendo sacralizado a epopeia marítima à exaustão. Não se trata de desconsiderar o feito, nem de o ler a partir do presente - politização tão negativa quanto a nacionalista -, mas antes de reconhecer o seu lado nefasto. É por isso que um país pobre e profundamente católico foi e é tão fortemente solidário, porque sempre percebeu a importância da vizinhança, desde os ...

MARCELO, O VATICANO E A LAICIDADE

Marcelo Rebelo de Sousa iniciou o seu mandato com uma audiência papal, no Vaticano. Na condição de Chefe de Estado, as suas viagens, iniciativas e afins, adquirem significado particular. Assim, ao repetir o começo do mandato desta forma (a que se junta a visita a Espanha), o Presidente da República invoca o debate, uma vez mais, sobre o caráter laico do Estado português. Não é por acaso que o juiz José Almeida Lopes, numa abordagem às relações do Estado Português com a Santa Sé, considera Portugal um país concordatário. Ora essa condição de relação por proximidade face à religião católica invoca as motivações da Concordata de 1940, justificada por Salazar nos termos de uma situação histórico-cultural nacional inegavelmente católica. No entanto, não nos rege a Constituição de 1933, mas a de 1974 nas suas sucessivas revisões. Nesse sentido, não se estranha que Gomes Canotilho e Vital Moreira considerem existir sérias dúvidas sobre a constitucionalidade da Concordata entre o Estado Portug...

Marcelo, o Vaticano e a Laicidade

Marcelo Rebelo de Sousa iniciou o seu mandato com uma audiência papal, no Vaticano. Na condição de Chefe de Estado, as suas viagens, iniciativas e afins, adquirem significado particular. Assim, ao repetir o começo do mandato desta forma (a que se junta a visita a Espanha), o Presidente da República invoca o debate, uma vez mais, sobre o caráter laico do Estado português. Não é por acaso que o juiz José Almeida Lopes, numa abordagem às relações do Estado Português com a Santa Sé, considera Portugal um país concordatário. Ora essa condição de relação por proximidade face à religião católica invoca as motivações da Concordata de 1940, justificada por Salazar nos termos de uma situação histórico-cultural nacional inegavelmente católica. No entanto, não nos rege a Constituição de 1933, mas a de 1974 nas suas sucessivas revisões. Nesse sentido, não se estranha que Gomes Canotilho e Vital Moreira considerem existir sérias dúvidas sobre a constitucionalidade da Concordata entre o Estado Portug...

LULA LIVRE, E AGORA?

A libertação de Lula repõe a legalidade e o princípio do Estado de Direito, depois de um cárcere político com a conivência de um Sérgio Moro que, no engodo da ambição, acabou enganado pelo bolsonarismo. Mas e agora? É claro que uma eleição direta para o titular de um cargo político com a dimensão do Presidente da República, particularmente em regimes presidencialistas, transporta sempre uma aura de culto de personalidade. No Brasil, a situação vai além da dimensão carismática, fixando-se num plano de messianismo político evidente e pernicioso para a democracia. De Collor de Melo a Bolsonaro, de Lula a Dilma, vemos um mundo de trincheiras ideológicas, de deambulações entre líderes antissistémicos apelidados de "mito", e a figura do pai/mãe da "nação", mas jamais saindo do populismo. Assim, embora a libertação de Lula possa levar o PT à tentação de recandidatar o ex-Presidente, tal decisão seria, a meu ver, um erro. A forma como decorreu a última campanha eleitoral co...

Lula Livre, e agora?

A libertação de Lula repõe a legalidade e o princípio do Estado de Direito, depois de um cárcere político com a conivência de um Sérgio Moro que, no engodo da ambição, acabou enganado pelo bolsonarismo. Mas e agora? É claro que uma eleição direta para o titular de um cargo político com a dimensão do Presidente da República, particularmente em regimes presidencialistas, transporta sempre uma aura de culto de personalidade. No Brasil, a situação vai além da dimensão carismática, fixando-se num plano de messianismo político evidente e pernicioso para a democracia. De Collor de Melo a Bolsonaro, de Lula a Dilma, vemos um mundo de trincheiras ideológicas, de deambulações entre líderes antissistémicos apelidados de "mito", e a figura do pai/mãe da "nação", mas jamais saindo do populismo. Assim, embora a libertação de Lula possa levar o PT à tentação de recandidatar o ex-Presidente, tal decisão seria, a meu ver, um erro. A forma como decorreu a última campanha eleitoral co...

A poesia traduzida tem "raça"?

Imagem
O poema recitado por Amanda Gorman na cerimónia da tomada de posse do presidente estadunidense Joe Biden estava previsto ser traduzido, para holandês, pela escritora Marieke Lucas Rijneveld, com o aval da primeira. No entanto, um artigo de Janice Deul, jornalista e ativista negra, no jornal Volkskrant, fez com que Marieke desistisse, face à onda de críticas. Janice Deul argumenta que a tradução do poema deveria caber a "um artista local, jovem, uma mulher assumidamente Negra”. Eventualmente ela mesma, Janice Deul.  É importante ter presente, claro, que tal como Doris Sommer e outros autores mostram, há sentimentos e experiências que estão racialmente circunscritas. Mas mesmo Sommer, autora branca, é capaz de traduzir e inscrever as circunstâncias negras na literatura. É por isso que queiramos ou não, a reação de Deul e afins é populismo de esquerda. Ao radicalizar as questões raciais esvazia-as de conteúdo e impede a simpatia de fora. Ironicamente, o que os movimentos de militânc...