LULA LIVRE, E AGORA?
A libertação de Lula repõe a legalidade e o princípio do Estado de Direito, depois de um cárcere político com a conivência de um Sérgio Moro que, no engodo da ambição, acabou enganado pelo bolsonarismo. Mas e agora? É claro que uma eleição direta para o titular de um cargo político com a dimensão do Presidente da República, particularmente em regimes presidencialistas, transporta sempre uma aura de culto de personalidade. No Brasil, a situação vai além da dimensão carismática, fixando-se num plano de messianismo político evidente e pernicioso para a democracia. De Collor de Melo a Bolsonaro, de Lula a Dilma, vemos um mundo de trincheiras ideológicas, de deambulações entre líderes antissistémicos apelidados de "mito", e a figura do pai/mãe da "nação", mas jamais saindo do populismo.
Assim, embora a libertação de Lula possa levar o PT à tentação de recandidatar o ex-Presidente, tal decisão seria, a meu ver, um erro. A forma como decorreu a última campanha eleitoral com fake news, ataques de caráter, e combate cultural, em torno de uma figura sólida e institucional como Fernando Haddad, deixa antever uma campanha eleitoral difícil para Lula, especialmente porque a matéria de desacreditação de Haddad foi, precisamente, a associação direta com o anterior. É verdade que Lula ainda goza de imenso capital político, aparecendo num largo espetro social como o “pai da nação”, ao estilo populista getuliano, embora de esquerda. No entanto, uma boa parte do eleitorado conquistado por Bolsonaro foi dentro de uma onda “antipetista” representada em Lula.
Assim, o futuro da política brasileira poderá não passar pelo PT, mas antes por um movimento renovado de centro-esquerda, embora com o apoio daquele. Ou seja, o que o Brasil parece necessitar é de uma alternativa “à portuguesa”, capaz de jogar ao centro sem deixar de ter uma mão na esquerda. Isto tendo presente que o centro-direita se evaporou na “nova direita” mundial manifesta num nacionalismo económico-liberal e moral-conservador. Ninguém estaria mais qualificado para liderar esse processo que Fernando Haddad não tivesse este descapitalizado a sua imagem política nas anteriores eleições. A possibilidade avançada pela imprensa brasileira de que Haddad poderia surgir como número 2 de uma possível candidatura de Lula em 2022, deixa muito claro que Haddad se encontra excessivamente dependente de Lula e do PT. Guilherme Boulos e Ciro Gomes podem surgir como alternativas, embora lhes falte o carisma necessário para capitalizar um largo espetro eleitoral.
É, pois, previsível que o Brasil não consiga libertar-se da bipolarização PT-Nova Direita, não sendo de desconsiderar que, no quadro do populismo messiânico inscrito na cultura social e política do país, haja uma aspiração proto-religiosa de ver um combate maniqueísta entre Lula e Bolsonaro.
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