Excecionalismos?

Por demasiado tempo andou a Ciência Política e o comentariado político iludidos com uma ideia de excecionalismo português face ao populismo, como se a geografia e uma “brandura” de personalidade fossem fatores de impermeabilidade ao fenómeno do populismo. Não obstante a ilusão de imunidade, o populismo sempre existiu no país, muitas vezes disfarçado sob outras formas mais sutis.


Tratava-se, evidentemente, de um wishful thinking, o qual casava bem com outra ilusão de excecionalismo: a do colonialismo benemérito, o qual alimentou a ideia de um excecionalismo positivo na história de Portugal, evitando o debate sobre as diversas esquinas do passado. Em jeito de parêntesis: ao mito do “bom colonizador” não tem, acredito, de se opor uma postura muito advogada hoje, de atos de contrição sobre a história, em modo de penitência retrospetiva sem incluir os contextos e a multiplicidade de fatores presentes na História.


Retomando: quando se tomou consciência de que o populismo tinha caminho para andar em Portugal já o Chega estava no Parlamento.


Daqui emerge uma nova perceção, a de que o populismo em Portugal é um sintoma temporário, resultado do descontentamento com a elite política, vista como focada apenas nos seus interesses e inerentemente corrupta. No entanto, essa visão pode ser outra ilusão, pois há um terreno fértil para um populismo identitário no país.


Ora, este tipo de populismo baseia-se no medo da ameaça cultural e religiosa alegadamente trazida pela imigração. Esta reação está na base do "pânico moral", que foi responsável pelo crescimento de partidos populistas em outros países, como a AfD na Alemanha e o movimento pró-Brexit no Reino Unido. Pela ideia de que a cultura e a identidade religiosa estão ameaçadas, julgo operatório designar tal pânico como “cultural” ou “identitário”, uma vez que a noção de “moral” é melhor aplicável às disputas das “guerras culturais”.


Assim, o partido Chega, ou qualquer outro que adote um discurso populista identitário, pode encontrar um público disposto a apoiar as suas ideias, especialmente se não houver uma resposta eficaz para enfrentar as questões subjacentes que alimentam o sentimento populista.

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