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A mostrar mensagens de maio, 2022

"Depois da tempestade, a bonança"

Não sendo bem isso, a verdade é que depois da euforia com a resistência heroica da Ucrânia, começamos a ouvir vozes que querem uma solução negociada. É compreensível. Uma coisa é a euforia de um Robin Hood por algum tempo, outra bem diferente é se tal façanha obriga o sheriff de Nottingham a cobrar mais impostos. Com isso, os entusiastas de uma vitória ucraniana sobre a Rússia de Putin começam a adotar uma visão de realpolitik, defendendo uma paz negociada para bem de todos. Isso significa, contudo, que Putin sairá reforçado, com mais território, isolará a Ucrânia, tornando-a mais fraca e com o tempo disponível a ser um Estado-satélite russo, como a Bielorrússia. Significa, então, que o PCP tinha razão? Não creio que seja bem assim. Sim, de facto o PCP defendeu sempre uma solução pacífica, que não representasse uma escalada militar. No entanto, colocou sempre ambos os lados num mesmo patamar moral, em razão de dois vícios que são faces de uma mesma moeda: o alinhamento histórico russ...

Os dias de ser-se pais

A paternidade é um exercício difícil de compaginar a vida sem tempo com o tempo preciso para educar. O desejo de fazer o melhor possível muitas vezes embate nas impossibilidades dos afazeres e na ausência de paciência. Percebe-se que há sempre um juízo de valor sobre os modelos de educação anteriores. Procura-se ser mais próximo, mais amigo, menos punitivo. Às vezes no excesso da compensação deformada. No entanto, muitas vezes seguir o modelo dos nossos pais não é um pecado, mas o ideal, porque hoje vê-se emergir uma geração de pais e crianças regidas por um modelo de pais-helicópteros (hiperprotetores que não preparam para as dificuldades e desafios) e crianças tiranas (que pela ausência de um "não" e de regras, são excessivamentr egoístas, individualizadas e emocionalmente frágeis). A geração snowflake vai ser ainda mais insuportável do que atual, com um preço tremendo sobre o contrato social e a ética comunitária. É diante desta realidade que a disciplina de Cidadania é h...

Racismo.pt

Quando se conclui que Portugal é um país racista não significa (i) que o racismo seja uma política do Estado, (ii) que todas as pessoas que compõem a sociedade sejam racistas. O que se passa é que uma sociedade que foi colonial até muito tarde e que à custa do desejo de manutenção desse colonialismo durante o Estado Novo inventou para si um carácter benigno do seu colonialismo, naturalmente preserva traços de hierarquização racial e cultural, bem como processos de racialização dos sujeitos, que estando nas estruturas sociais e estaduais produzem efeitos na esfera dos sujeitos racializados. São os efeitos do racismo cordial, um tipo de racismo que aparenta não o ser. Isto não significa, também, que tudo o que de menos bom acontece na vida dos sujeitos racializados seja justificado pelo racismo (porque a falta de sorte, de competência, talento, etc., está em todo o lado), mas implica que sejam pessoas que via de regra não partem das mesmas condições de partida, quer porque a raça tende a...

O Direito a Inventar Memória

É um favor que se faz ao populismo de Direita combater qualquer manifestação de identidade nacional como vício por princípio ( aberratio ab initio ). Parece-me excessiva, pouco realista e sem efeito prático, a ideia de país sem identidade como primado contrário ao "Estado-Nação", pelo facto de que condena, no plano moral, o direito à identidade e à memória coletiva, a qual não se querendo unívoca nem limitadora, é no entanto lícita. Uma sociedade multicultural não implica a ausência de marcadores que identificam a história de um país. O conceito de saudade pode bem não ser um exclusivo português, até porque pouco difere de nostalgia ou do romeno dor, mas isso não invalida que seja um ativo cultural português. 

Ilegalizar

Na década de 1990, diante da escalada populista do CDS de Paulo Portas, Daniel Oliveira chegou a defender um cordão sanitário em torno do partido. Do cordão sanitário ao lamento pelo seu desaparecimento parlamentar fizemos um caminho próprio da democracia plural. Quando olhamos o programa ideológico e o modus operandi do CDS da época reconhecemos a quase coincidência com o Chega, um partido populista, nacionalista-liberal, em tudo idêntico ao modelo da maioria dos partidos europeus da sua família política que em alguns países chegaram ao poder sem derrubarem a democracia. Empobrecendo-a, eventualmente, através de uma clivagem social por si promovida, mas não a destruindo, graças à solidez das instituições. É por isso que sempre me opus a ilegalizar o Chega, por mais que não me reveja nas suas ideias e as considere perigosas para o consenso político e harmonia social. Nesse capítulo concordo com Riccardo Marchi de que não faz sentido falar em normalização de um partido que não é anorma...

O Estado do Tempo

1. O novo executivo da Moita denuncia o executivo anterior, comunista, cuja gestão durou 30 anos, de ter deixado uma dívida incobrável no valor de 4 milhões de euros. Um caso que espelha (i) a urgência da rotatividade no poder, (ii) que o poder local deve ser visto à luz da concretitude das pessoas e não de partidos, porque irregularidades na gestão autárquica são transversais ao país, independentemente da cor política. 2. O Papa Francisco culpa a NATO pela invasão russa da Ucrânia, ao se ter estacionado nas fronteiras do invasor. Apesar da simpatia nutrível pelo sumo sacerdote católico, a verdade é que o Papa é um homem da América Latina e de um tipo de orientação política histórica bipolar. Sendo a NATO de adesão livre é difícil colocar num mesmo patamar a adesão livre de países e a invasão e/ou anexação de territórios alheios, mesmo tendo presente que os EUA tratam a defesa das suas fronteiras como começando nas fronteiras alheias. 3. Uma ex-corrente de um reality show, em Portugal,...

A presença de Nancy Pelosi e a nova fase da guerra na Ucrânia

A presença da presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos em Kiev, colocando os EUA ao lado da Ucrânia, diante da invasão russa do seu território, abre uma nova fase nas operações de guerra e sobretudo em matéria geopolítica. Uma das mais notórias acusações por parte dos mais céticos no apoio à Ucrânia é a de que Zelensky e a Ucrânia travam uma guerra intermediada, ou seja, de que a Ucrânia é um combatente mandatado pela NATO. É claro que este argumento desconsidera a mais primária circunstância de que foi a Rússia, ao arrepio do direito internacional, que tomou a iniciativa de invadir território alheio, colocando em causa a autodeterminação dos povos (art.º 1.º da Carta das Nações Unidas e do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos). Isto implica que é irrealista supor um caminho para a paz, neste momento, sem que a Ucrânia detenha forma de defesa da integridade do seu território e salvaguarda do seu povo. De outro modo estaríamos diante de uma rendição, o ...