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A mostrar mensagens de janeiro, 2015

Bárbara, Carrilho e a violência doméstica, en passant

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Em matéria do caso Bárbara Guimarães vs Manuel Maria Carrilho, e a propósito do texto de Carla Hilário Quevedo (CHQ) sobre o assunto , abro o tom dizendo que o caso  é  necessariamente do foro jurídico e não público. Todo o mediatismo -- que revela um aproveitamento jornalístico muito pouco ético -- em redor dos acontecimentos retira a questão do domínio dos factos. O julgamento do caso em praça pública, ou ao menos a discussão do mesmo como «interesse público», tende a deturpar os contextos e a abrir espaço para uma opinião pública orientada, pois como bem diz a Carla as vítimas são silenciosas e coube a Carrilho o aproveitamento do espaço mediático em seu favor. Mais uma razão, então, para o caso não ser objeto mediático. Quem gosta de acompanhar a vida dos outros e opinar sobre ela deve fazê-lo recorrendo aos programas televisivos onde os sujeitos se oferecem para estar na vitrina, como a Casa dos Segredos e outros da mesma natureza.  Seja como for, e não retirando a razão dos argum...

Boko Haram e a violência na Nigéria ou o que diria Ary dos Santos de tudo isto.

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  Em 1973, às portas da Revolução de Abril do ano seguinte, numa altura em que o Estado Novo sobrevivia a espaços e em cuidados paliativos, o poeta e publicitário Ary dos Santos, escreve " Poeta Castrado, Não! ", poema que 30 anos depois viria a ser declamado pelo ator José Raposo no Parque Mayer, com uma intensidade e profundidade inadjetivável, arrancando ao peito a revolta. Numa dada estrofe diz ele que, "De fome já não se fala/- é tão vulgar que nos cansa -/mas que dizer de uma bala/ num esqueleto de criança?".  Quase meio século depois as palavras de Ary dos Santos ecoam ao norte da Nigéria. O programa ideológico-religioso do Boko Haram é um crime contra a humanidade, silenciado pelo triste facto de que uma morte na Europa vale mais do que cem em África. Não somos, claro, todos iguais. Enquanto o mundo parou para prestar homenagem aos jornalistas do satírico Charlie Hebdo, as notícias sobre a violência levada a cabo por terroristas em nome do Estado Islâmico na...

A Vitória do Syriza. Horizontes para um amanhã europeu.

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A vitória do Syriza abre portas a uma nova Europa? Não necessariamente. Demasiados fatores deverão ser tomados em conta e muito jogo político estará agora a começar. Há um mantra na União Europeia que afirma a necessidade dos gregos cumprirem os seus deveres. Não será pelos gregos que a Alemanha abrirá mão do seu projeto, o qual é a fatura de ter aceite fazer parte de uma moeda regional. Os alemães padecem de um egocentrismo francês tornado pragmático, sendo muito pouco dados a pensar fora de si mesmos e do seu velho «espaço vital». Não adianta os especialistas virem dizer que afinal a austeridade é um péssimo caminho, um dos muitos erros cometidos por políticas de gabinete, a começar pela moeda única que pretendia nivelar pelo marco alemão uma série de países a diferentes tempos e realidades socioeconómicas.  Não obstante, e a menos que o Syriza pós-eleito se torne num partido moderado e negocial, certamente que o jogo de poderes europeu irá mudar. Irá a Grécia permanecer na União Eur...

Adoção chumbada, um país ainda a assoar-se na gravata

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Há um problema de conjugação de cores e padrões entre uma sociedade globalizada e os brandos costumes historicamente enraizados . Na via das dúvidas joga-se pelo seguro.   A adoção por casais homossexuais foi chumbada no Parlamento . Há razões políticas e sociológicas que o justificam. Em primeiro lugar, os motivos políticos são claros: há eleições à porta e a direita em exercício de (decadente) governo, com margem mínima eleitoral, não quer melindrar o seu eleitorado mais fiel, na ínfima esperança de manter o lugar, ainda que branda "que se lixem as eleições". Não há espaço para manobras para cativar o eleitorado volátil. Os setores conversadores e os homofóbicos são uma fatia importante do eleitorado de direita. Qualquer taxista de Lisboa [nota: estereótipo em uso como alegoria] dirá que os "maricas" não têm nada que ter filhos. É claro que esquecem dos milhares de homens casados e com filhos que optaram por se manter a si mesmos no armário. Ora, isto leva-nos aos...

A adoção homossexual e os delírios sociológicos ali metidos

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Já publiquei neste espaço algumas considerações acerca do casamento e adoção homossexuais. Sou, para ambos os casos, a favor. E, igualmente para ambos os casos, por a família não se tratar de um património exclusivo judaico-cristão. A sociedade portuguesa ao se tratar de uma realidade social, política, económica e ideológica (no sentido lato de nação imaginada e tradição inventada) que busca, impulsionada pelo motor conjetural, a democratização do seu pensamento num sentido de garante das liberdades de consciência, escolha e atuação, dentro de um quadro que age com base nas garantias dos direitos alheios. Nesse sentido, valorizando as múltiplas identidades vigentes em sociedades globais, em que as identidades se jogam não apenas na alteridade mas na opção, defendo princípios como o casamento e adoção homossexual, o casamento polígamo, a eutanásia, e por aí em diante.  Aceito, desde que apresentados com moderação e coerência, opiniões contrárias. O que não confere argumento é a ideia de...

Das "controversas" declarações do Papa Francisco

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Corre pelo Facebook uma batalha, situada numa certa esquerda, em torno das declarações do Papa Francisco a propósito dos ataques em Paris. Comenta o Sumo Pontífice católico que a liberdade de expressão se limita quando ofende propositadamente a religião dos outros . Mesmo como não-cristão não consigo compreender a gravidade de tais declarações. É certo que o Papa carrega às costas uma longa história institucional de proselitismo e violência religiosa. Não obstante, há que abrir a porta à possibilidade de  mea culpa , de reconciliação do passado negativo com um presente e um futuro mais aberto e positivo. Desse modo, não se deve exigir a uma instituição religiosa que deixe de ser aquilo que ela é, doutrinariamente -- e desde que tal não viole as liberdades e as dignidades físicas e psicológicas dos sujeitos -- em favor de um ideal que se tenha. Eu como não católico posso desejar por instituições religiosas mais liberais, dialogantes e positivas, mas não posso exigir que a Igreja Católic...