Mensagens

A mostrar mensagens de junho, 2020

Da Questão Cigana

Imagem
Chamar à atenção do racismo estrutural não significa tornar as minorias agentes passivos da história, significa, isso sim, salientar que as suas circunstâncias sociais e económicas são condicionadas por forças invisíveis que agem ab initio , desde o seu nascimento. Quando alguém, numa empresa, coloca um CV para o lado a partir da classificação étnica de um candidato está a) a ser racista, b) a contribuir silenciosamente para o racismo estrutural. No caso dos indivíduos de etnia cigana, chamar à atenção da necessidade de políticas públicas de inserção social e fomento escolar, cujos efeitos são lentos em virtude de um histórico de perseguição e segregação, não significa negar os problemas correntes derivados das falhas de inserção. Os casos de violência, como o mais recente registado em Benavente, provam a urgência tanto de políticas públicas quanto da ação judicial. Nada fazer é abrir terreno para o Chega e outros movimentos radicais, e com eles para as soluções de segregação e genocíd...

A ESTÁTUA

Parece-me que entrámos, definitivamente, na reprodução dos confrontos vigentes no Brasil, onde não há possibilidade para o bom-senso e o equilíbrio. Ou se está de um lado da barricada ou do outro. Isto está refletido neste debate em torno da estatuária, onde encontramos a glorificação absoluta dos símbolos pátrios, sem qualquer sentido crítico, apenas pela exaltação da memória nacionalista, e do outro lado a rejeição do direito aos símbolos nacionais, como se um país fosse somente uma sociedade emergida do contrato social, sem uma história e uma identidade.   Neste jogo de surdos, faz-se um julgamento da história a partir dos padrões coevos, como se cada época não tivesse o seu próprio contexto e à luz do qual é honesto avaliar as atitudes. Isto não significa, contudo, desculpabilizar as atrocidades da escravatura e do colonialismo, simplesmente porque o comércio de escravos era "normal", até porque não se aplica, felizmente, a mesma receia ao nazismo.   Posto isto, no caso d...

A Estátua

Imagem
Parece-me que entrámos, definitivamente, na reprodução dos confrontos vigentes no Brasil, onde não há possibilidade para o bom-senso e o equilíbrio. Ou se está de um lado da barricada ou do outro. Isto está refletido neste debate em torno da estatuária, onde encontramos a glorificação absoluta dos símbolos pátrios, sem qualquer sentido crítico, apenas pela exaltação da memória nacionalista, e do outro lado a rejeição do direito aos símbolos nacionais, como se um país fosse somente uma sociedade emergida do contrato social, sem uma história e uma identidade.   Neste jogo de surdos, faz-se um julgamento da história a partir dos padrões coevos, como se cada época não tivesse o seu próprio contexto e à luz do qual é honesto avaliar as atitudes. Isto não significa, contudo, desculpabilizar as atrocidades da escravatura e do colonialismo, simplesmente porque o comércio de escravos era "normal", até porque não se aplica, felizmente, a mesma receia ao nazismo.   Posto isto, no caso d...

DA AUTO-ESTEREOTIPIZAÇÃO

O antropólogo português Miguel Vale de Almeida, escreveu há uns tempos, no seu blogue, um interessante  texto  sobre estereotipizações e a forma com estas podem ser auto-induzidas. A forma como os estereótipos organizam o todo social e delimitam fronteiras de conforto, é tema amplamente conhecido. A psicologia social, enquanto fenómeno, particularmente nas áreas urbanas, mas ainda assim nas áreas rurais, tem nas suas avenidas mentais um conjunto de estereótipos que servem para traças as fronteiras e os padrões de um coletivo plural. Os estereótipos, frutos das alteridades permanentes, são simultaneamente produto e produtores de sociedade. Se as ciências sociais reconhecem os estereótipos como um fenómeno de  longue durée , não é menos inesperado que a literatura esteja cheia destes modelos sociais. A grande obra de Jorge Amado viveu em torno desses papéis socialmente adquiridos e modelados. Em  Jubiabá  António Balduíno representa o negro malandro, sambista, que leva as "cabrochas...

Da Auto-Estereotipização

Imagem
O antropólogo português Miguel Vale de Almeida, escreveu há uns tempos, no seu blogue, um interessante  texto  sobre estereotipizações e a forma com estas podem ser auto-induzidas. A forma como os estereótipos organizam o todo social e delimitam fronteiras de conforto, é tema amplamente conhecido. A psicologia social, enquanto fenómeno, particularmente nas áreas urbanas, mas ainda assim nas áreas rurais, tem nas suas avenidas mentais um conjunto de estereótipos que servem para traças as fronteiras e os padrões de um coletivo plural. Os estereótipos, frutos das alteridades permanentes, são simultaneamente produto e produtores de sociedade. Se as ciências sociais reconhecem os estereótipos como um fenómeno de  longue durée , não é menos inesperado que a literatura esteja cheia destes modelos sociais. A grande obra de Jorge Amado viveu em torno desses papéis socialmente adquiridos e modelados. Em  Jubiabá  António Balduíno representa o negro malandro, sambista, que leva as "cabrochas...