Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2020

A Montra do Império

A presença africana na cidade de Lisboa e outros lugares do país (segue de exemplo o Paço dos Negros da Ribeira de Muge) é marca inegável da História nacional, meticulosa e ideologicamente negada sob o compasso da memória coletiva racializada. Escravidão, irmandades negras, autos da Inquisição, profissões como vendedeiras, limpa-chaminés e tantas outras, são elementos que provam a marca africana na História portuguesa no seu próprio solo, pese todo o esforço de apagamento intencional dessa memória. A novidade da presença africana que a reportagem da SIC mencionou tem um viés temporal adstrito ao Estado Novo. Na cidade do Porto de então a presença de negros era uma raridade. Memórias familiares contam que se considerava sinal de bom presságio o avistamento de um negro na Invicta dos anos de 1950.   Portanto, no caso das exposições de negros, fenómeno comum na Europa de então, o elemento exótico da "raridade" era um ativo importante e real. A profunda marca do racismo, do deter...

A MONTRA DO IMPÉRIO

A presença africana na cidade de Lisboa e outros lugares do país (segue de exemplo o Paço dos Negros da Ribeira de Muge) é marca inegável da História nacional, meticulosa e ideologicamente negada sob o compasso da memória coletiva racializada. Escravidão, irmandades negras, autos da Inquisição, profissões como vendedeiras, limpa-chaminés e tantas outras, são elementos que provam a marca africana na História portuguesa no seu próprio solo, pese todo o esforço de apagamento intencional dessa memória. A novidade da presença africana que a reportagem da SIC mencionou tem um viés temporal adstrito ao Estado Novo. Na cidade do Porto de então a presença de negros era uma raridade. Memórias familiares contam que se considerava sinal de bom presságio o avistamento de um negro na Invicta dos anos de 1950. Portanto, no caso das exposições de negros, fenómeno comum na Europa de então, o elemento exótico da "raridade" era um ativo importante e real. A profunda marca do racismo, do determi...

Estátuas, Nacionalidade e a escola que não nos formou

Imagem
(inauguração da estátua do Marquês de Pombal) No seguimento do homicídio de George Floyd, assistimos a uma cabal reivindicação global de combate ao racismo, um exercício extremamente difícil de levar a cabo em países onde este comporta uma dimensão estrutural. Como afirma Sílvio Almeida, em  O que é o racismo estrutural? , o racismo “é uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privilégios, a depender ao grupo racial ao qual pertençam”. Com efeito, é nas práticas inconscientes que o racismo tem maior preservação e eficácia, porque graças à sua capacidade de preservação, penetra as estruturas sociais, reproduzindo-se de forma invisível, traduzindo-se numa perceção comunitária de inexistência, a partir do “lugar de fala” da maioria. Aproxima-se, portanto, do que Weber designa por «dominação», tendo em vista que impõe o olhar enviesado do coletivo sobre a parte ...