Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2016

A igualdade devia ser um não-assunto

Imagem
Fui e serei a favor do casamento, da adoção e de todos os direitos devidos aos casais homossexuais. A defesa do contrário -- ainda que respeite -- diz diretamente respeito a um modelo de sociedade edificado sobre ideais religiosos. Nesse sentido, o garante constitucional dos direitos inalienáveis dos casais homossexuais é um passo importante para a afirmação da pluralidade social e da democracia, porque uma verdadeira sociedade democrática é aquela onde todos têm lugar, e onde as opções sexuais não são nem podem ser patologias, nem ficar ao abrigo de uma ideia de "comportamentos desviantes", noção que confunde pluralidade de género com criminalidade.  No entanto, há, para mim, uma diferença entre igualdade necessária, ao ponto de a opção sexual, de religião, política ou desportiva se tornam em "não-assuntos" sociais, e  empowerment   gay ou outro qualquer. Em sociedade laicas, plurais e democráticas as identidades dizem respeito aos sujeitos, não ao coletivo. Fazer...

A IGUALDADE DEVIA SER UM NÃO-ASSUNTO

Imagem
Fui e serei a favor do casamento, da adoção e de todos os direitos devidos aos casais homossexuais. A defesa do contrário -- ainda que respeite -- diz diretamente respeito a um modelo de sociedade edificado sobre ideais religiosos. Nesse sentido, o garante constitucional dos direitos inalienáveis dos casais homossexuais é um passo importante para a afirmação da pluralidade social e da democracia, porque uma verdadeira sociedade democrática é aquela onde todos têm lugar, e onde as opções sexuais não são nem podem ser patologias, nem ficar ao abrigo de uma ideia de "comportamentos desviantes", noção que confunde pluralidade de género com criminalidade.No entanto, há, para mim, uma diferença entre igualdade necessária, ao ponto de a opção sexual, de religião, política ou desportiva se tornam em "não-assuntos" sociais, e  empowerment   gay ou outro qualquer. Em sociedade laicas, plurais e democráticas as identidades dizem respeito aos sujeitos, não ao coletivo. Fazer d...

Do Cartaz do Bloco de Esquerda

Imagem
Não poderemos ler este cartaz do Bloco de Esquerda (BE) a partir de uma lente teológica ou científica da religião. Nem que seja porque o mesmo não cumpre tal função. Não pretende, sabe-se, ser um convite à reflexão sobre a divindade ou essência de Jesus Cristo. Isto porque o debate poderia ser estendido ao ponto de se afirmar que Jesus seria, ele mesmo, o pai e o filho, ou filho de três homens - Deus-Pai, Anjo Anunciador e José, o pai de criação, e tantos outros desdobramentos. Não obstante o propósito do BE ser abrir a consciência para a diversidade que compõe o conceito de família -- e que os estudos de longo-termo da Antropologia comprovam definitivamente --, o recurso quase provocatório a Jesus como elemento-chave para o "sacudir" de consciências permite que as condenações se multipliquem e as críticas de natureza teológica possuam propriedade. É sempre perigoso transformar referenciais religiosos em alegorias políticas.  Por seu turno, as críticas do CDS, que consideram ...

O regresso da eutanásia

Imagem
Um dos valores que reservo à esquerda trata-se da liberdade individual assegurada por uma ética pessoal sobre todos os condicionalismos culturais. A esquerda entende a vida humana como um processo natural, biológico, que se expande para uma vivência social e individual, regulada pela norma social mas salvaguardada pela livre escolha do sujeito, sem imposições que não aquelas que promovem a estabilidade e a segurança colectivas, a lei, portanto. Nesse aspecto, a propriedade sobre o próprio corpo deve prevalecer como o mais básico sinónimo de liberdade, inquestionável e inalienável. Conquistámos o direito de manipulação do nosso corpo mas não de decisão sobre ele. A revolução da iluminação não atravessou o túnel do obscurantismo religioso cristão. A preservação ideológica da vida como instrumento sagrado condenada a decisão humana sobre o corpo. Há, portanto, uma instrumentalização da vida em prol de uma ideologia de fé, que mina fortemente a consagração do Estado de Direito. O aborto e ...

Um País de Interior Órfão

Imagem
A propósito deste texto  de Francisco José Viegas, sobre Torre do Moncorvo, dei por mim a regressar a lugares da infância e de outras tantas viagens. Recordei os verões quentes na planície alentejana de Vila Nova de Milfontes, quando o alcatrão se acaba e a terra leva os tons das gentes, o turbilhão turista é menor, os cafés reúnem os mesmos de sempre, em torno dos caracóis, do ciclismo na televisão, de um copo de vinho meio entornado no balcão, e o baloiço cá fora abana sozinho. Lembro de me sentar no silêncio de um nada, com o telemóvel na mão à espera do sms do amigo de sempre, com palavras sobre coisa alguma. Quando a praia ficava para trás o lugar mergulhava em si mesmo, em pó, na companhia de um walkman e de uma bicicleta a grandes velocidades. Não é preciso mais do que um passo de memória para subir a serra da Lousã e dar comigo entre verdes e águas, na balbúrdia de uma verão vazio, cada vez mais despido de gentes. São muitos os rostos que partiram e nem nos dias quentes voltam....

A importância da memória e do esquecimento

Imagem
«[A] memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações». (Pierre Nora, 1993:9). — Os malfadados acontecimentos do nosso tempo, especificamente a crise dos refugiados, e as respostas europeias, como a cassação dos bens por parte da Dinamarca, remetem-nos para tempos não muito distantes, com a fuga em massa à emergência do Estado nazi de Adolf Hitler por parte dos judeus oprimidos. A invocação dos acontecimentos, a que podemos recuar, a título de exemplo, à violento processo de escravatura, com o comércio forçado de inúmeros africanos para as américas, ou avançar para os não menos violentos  gulag durante o regime estalinista, serve-nos para pensar a importância da memória. Enquanto dispositivo biológico humano, a memória é a nossa capa...