Do Cartaz do Bloco de Esquerda
Não poderemos ler este cartaz do Bloco de Esquerda (BE) a partir de uma lente teológica ou científica da religião. Nem que seja porque o mesmo não cumpre tal função. Não pretende, sabe-se, ser um convite à reflexão sobre a divindade ou essência de Jesus Cristo. Isto porque o debate poderia ser estendido ao ponto de se afirmar que Jesus seria, ele mesmo, o pai e o filho, ou filho de três homens - Deus-Pai, Anjo Anunciador e José, o pai de criação, e tantos outros desdobramentos. Não obstante o propósito do BE ser abrir a consciência para a diversidade que compõe o conceito de família -- e que os estudos de longo-termo da Antropologia comprovam definitivamente --, o recurso quase provocatório a Jesus como elemento-chave para o "sacudir" de consciências permite que as condenações se multipliquem e as críticas de natureza teológica possuam propriedade. É sempre perigoso transformar referenciais religiosos em alegorias políticas.
Por seu turno, as críticas do CDS, que consideram o cartaz uma afronta à, cite-se, "sensibilidade dos portugueses", inscrevem-se numa leitura apressada da sociedade portuguesa, tomada pela sua uniformidade religiosa, a partir dos padrões ideológicos do partido, retirando qualquer força ou legitimidade às condenações, pois conferem ao cristianismo uma dimensão normativa no seio da sociedade portuguesa. Um erro.
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