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A mostrar mensagens de outubro, 2022

E agora, Brasil?

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A prudência tende a ser contrária à ansiedade do comentário, cujo primeiro impulso é o de vaticinar resultados. Há uma verdadeira hipótese de Lula ganhar, mas não creio que o faça por uma margem significativa. Na verdade, nem estou absolutamente seguro da sua vitória. É preciso ouvir as pessoas nas esquinas da vida, depois da declaração oficial para sondagem. O voto envergonhado, feito de preconceitos, sugestões do pastor, pressões do patrão, e partilhas de WhatsApp, tem uma inclinação bolsonarista. Precisamos ter presente que o preconceito contra o nordestino, o racismo, o apontar do dedo para o lado como julgamento moral, a busca por uma nostalgia imaginada e fabricada da gloriosa nação, o medo do crime, a batalha moral evangélica, possuem força psicológica e social inquestionável. Poderá ser uma cautela injustificada — as manobras eleitorais e as geografias que estão em disputa recomendam que assim seja — mas até ao lavar dos cestos não se fazem festas. E mesmo depois de tudo, ainda...

Ideologia ou Identidade de Género?

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Por mero acaso acabo de esbarrar neste texto no Observador. Há que reconhecer, em primeiro lugar, a qualidade da argumentação, mesmo que se discorde da mesma. E em boa parte discordo, pelo facto de absolutizar a perspectiva ocidental judaico-cristã sobre biologia e género. Quando digo absolutizar refiro-me a um olhar etnocêntrico que pressupõe que os padrões civilizacionais ocidentais são a medida do humano, que são universais. Ora, não são. São válidos no nosso canto do mundo para um número alargado de pessoas, e foi sobre eles que se construiu a nossa identidade civilizacional a partir das ruínas do Império romano e do mundo cristão que se seguiu. Em segundo lugar, assume que o género se constrói em relação estreita com a biologia, com os órgãos genitais. Retomo, se isso é válido no Ocidente não é um dado universal, razão pela qual, ao contrário do pensado no texto, o género é uma construção social. Sobre a questão do ensino da identidade de género às crianças, há que referir que ta...

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI

O desaparecimento das questões materiais como matéria essencial da política e da sociedade, resultante de sociedades que atingiram um certo bem-estar geral, foi compensado por questões pós-materiais ligadas ao progressismo moral, através de correções, compensações e valorizações de identidades minoritárias, segundo a lógica de que o princípio da igualdade pressupõe a garantia do direito à diferença e à compensação por via da discriminação positiva. Este ciclo acelerado de mudança para um pluralismo complexo, que desconstroi o primado de uma ideia de unidade moral e cultural, foi questionado, desde 2008, com crises económicas, e a emergência de um ressentimento de natureza material por parte de populações fragilizadas (facto que serve para questionar a teoria do privilégio branco) que aderem a uma agenda política nova e radical que afirma dar voz ao "povo" contra as "elites", que combina uma agenda económica na verdade neoliberal com um conservadorismo moral que ofer...

Velma e a sexualidade na BD

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Velma, personagem da icónica BD Scooby-Doo, apaixona-se pela vilã no novo filme Trick or Treat Scooby-Doo! .  Neste caso encontramos embrulhadas uma série de questões. Em primeiro lugar, a de saber se os  desenhos animados devem ser sexualizados. A verdade é que a sexualização dos desenhos animados é um fenómeno antigo, desde a mulher do rato Mickey, passando pelas personagens da Disney, e chegando a desenhos animados como American Dad. O Scooby-Doo, com efeito, já tinha personagens sexualizados, basta ver o caso de Daphne Blake, personagem feminina que representa a colegial sensual ou Fred Jones, o galã louro. A questão é desconsiderada pela sua natureza heteronormativa. Segundo, se o problema, ao caso, passa, então, pela sexualidade Velma. E a resposta é "sim". Velma há muito que é imaginada como lésbica pelos autores da série. O que se passa é que agora se considerou que havia um ambiente favorável à afirmação como tal. Portanto, retomo que o problema não é a sexualização ...

A Igreja e os abusos sexuais

No entanto, uma Igreja que aposta na doutrina do sentimento de culpa face a uma natureza eminentemente pecadora da humanidade, que pede expiação dos pecados e atos de contrição como caminho para a apreensão de um código moral, não pode pregar e não dar exemplo. Com o processo de laicização da sociedade, com a entrada do catolicismo numa dimensão de mercado religioso, ainda que em monopólio, a Igreja Católica enfrenta o desafio de sobrevivência (embora importe reconhecer um novo despertar conservador e fervoroso católico com a Nova Direita). Isso justifica que perante os casos de pedofilia a Igreja aposte na contenção de danos, normalizando os abusos sexuais, fazendo um malabarismo com os valores morais de agora, mentindo sobre a natureza não pública do crime e a ausência de dever de denúncia. Neste capítulo, o tipo de crime recai sob a alçada do art. 172.° do Código Penal, "abuso sexual de menores dependentes ou em situação particularmente vulnerável", tendo uma natureza públ...

E porque não Lula?

No caso do Brasil percebo (nos termos mínimos) que as pessoas de Direita votem em Bolsonaro. Na sua maioria é um voto classista, contra os avanços dos direitos laborais e a mobilidade ascendente dos mais pobres no período de Lula. É, também, um voto contra a violência e a insegurança, uma vez que em termos teóricos Bolsonaro representaria o modelo securitário (tosco, na verdade, por via do armamento geral da população). É, por fim, um voto religioso em prol de um Brasil teocrático evangélico. Em Portugal a situação é bastante diferente. O que leva as pessoas de Direita, portuguesas, a simpatizar com um homem cujo herói é Brilhante Ustra, torturador no período da ditadura militar, alguém que defende que tal período pecou por ter morto poucas pessoas, que não tem a menor simpatia pela cultura, pela literatura, pela arte, cujo trajeto político é marcado pela total ausência de produção, que é abertamente racista, misógino e homofóbico? [adenda: obrigado à equipa de Blogs do Sapo pelo desta...

Brasil 2022: os resultados

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Tal como fui dizendo "em off" a quem me foi perguntando — já que não tinha qualquer base científica ou dados reais para fundamentar a minha opinião, tratando-se apenas de um feeling —, Lula ganhou, mas haverá segundo turno. As sondagens eleitorais são, cada vez mais, instrumentos que influenciam votações mais do que refletem tendências de voto. É verdade que são indicadores de determinado momento, mas vem sendo evidente que quando publicadas alteram os comportamentos eleitorais. Para o que conta, a campanha para segunda volta vai transformar, novamente, o Brasil num campo de batalha cultural e política, agudizando tensões sociais. Em termos eleitorais, o facto de Lula partir à frente não significa uma necessária vantagem. A base bolsonarista tem grande capacidade de mobilização, e apesar de Lula ter uma plataforma eleitoral tendencialmente mais alargada, é ao mesmo tempo um ativo político tóxico. O facto de não se vislumbrar mais ninguém capaz de vencer Bolsonaro não signific...