SIC TRANSIT GLORIA MUNDI

O desaparecimento das questões materiais como matéria essencial da política e da sociedade, resultante de sociedades que atingiram um certo bem-estar geral, foi compensado por questões pós-materiais ligadas ao progressismo moral, através de correções, compensações e valorizações de identidades minoritárias, segundo a lógica de que o princípio da igualdade pressupõe a garantia do direito à diferença e à compensação por via da discriminação positiva. Este ciclo acelerado de mudança para um pluralismo complexo, que desconstroi o primado de uma ideia de unidade moral e cultural, foi questionado, desde 2008, com crises económicas, e a emergência de um ressentimento de natureza material por parte de populações fragilizadas (facto que serve para questionar a teoria do privilégio branco) que aderem a uma agenda política nova e radical que afirma dar voz ao "povo" contra as "elites", que combina uma agenda económica na verdade neoliberal com um conservadorismo moral que oferece sentido de pertença e conforto (exatamente igual ao que o ativismo e o associativismo oferecem). Ora, através dessa nova agenda pós-material assistimos à adesão às guerras culturais, que tornam matéria de confronto questões que teriam vocação para o consenso se o progresso dos direitos fundamentais não tivesse sido interrompido por uma crise económica global que acordou a ansiedade masculina sobre o seu papel como provedor da família (e com isto o debate sobre o que é uma família), que agudizou uma sensação de abandono entre as populações rurais, e tornou alvo de ressentimento os ativismos que se focam na culpabilização de larga escala dos sujeitos vistos como da maioria dominante e que a direita radical acolhe como maioria silenciosa. Há, portanto, um confronto de sentimentos de vítima, ressentidos e arreigados à sua posição, com perdas claras no consenso social. Por isso, a presença de um casal homossexual em desenhos animados é percebido como um ataque à identidade da Nação e aos valores civilizacionais ocidentais. E isto é uma vitória da Nova Direita sobre uma esquerda que, como diz Fukuyama (e não só), deixou de se preocupar com valores universais.

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