"é porque são loiros de olhos azuis"

A justificação de que a onda de solidariedade e apoio ao povo ucraniano resulta da sua condição de "loiros de olhos azuis" é simplista. É verdade que a condição "racial" dos ucranianos, bem como a filiação religiosa cristã, favorecem uma empatia, por exemplo, ao nível da Polónia. Mas há que reconhecer que o povo ucraniano é alvo de estigma e racialização (processo que ultrapassa características biológicas) em vários países da Europa, incluindo Portugal. Basta recordar a ausência de comoção nacional com o assassinato do cidadão ucraniano às mãos do SEF. Portanto, o que está aqui em causa é (i) uma rejeição de um regime e de uma figura (Putin) que causa a maior rejeição mundial atual, (ii) uma empatia geográfica por parte dos europeus que sentem que os acontecimentos são nas suas fronteiras, ou seja, são já ali, (iii) uma empatia resultante da proximidade de estilo de vida ("poderia ser eu"), e aqui sim, não podemos excluir reconhecimento biológico-racial, (iv) resultante de um fluxo continuado de imagens que nos colocam no palco de guerra a todo o momento e (v) sensação de transitoriedade do acolhimento, isto é, que os refugiados ucranianos não ficarão em definitivo. Neste capítulo, não tenho dúvidas que se a onda de refugiados ucranianos se tornar numa onda migratória, isto é, adquirir dimensão definitiva, perderá a dimensão de auxílio e solidariedade a médio/longo prazo.
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