de Le Pen ao Chega, um eleitorado além do racismo




Ao entregar o discurso racial e etno-nacionalista a Zemmour, concentrando-se em sentimentos de revolta e em narrativas populistas mais transversais, Le Pen deixou evidente que a forma como se move na política é bem diferente do seu pai, sendo muito mais próxima do modelo da nova direita trumpista e brexista, portanto de ideologia de ocasião. E isto significa, queira-se ou não, uma capacidade política de entrar no eleitorado de esquerda radical, bem patente na intenção de voto de parte do eleitorado de Mélenchon.

A literatura bem vem evidenciando que a adesão a discursos antisistémicos é resultado de uma ansiedade masculina branca de classe média-baixa e baixa (working-class) e suas famílias, para quem interessa mais a comida na mesa do que as lutas pós-materiais identitárias da nova esquerda burguesa. Quem não percebe isto vive numa redoma, não compreendendo que a racialização do outro é um fenómeno de longo-termo, inscrito nas ansiedades laborais dos sujeitos e não apenas no racismo biológico herdado do nefasto pensamento colonial. É o fenómeno Brexit no seu esplendor.



Por cá, ainda antes do Chega, o CDS de Manuel Monteiro percebeu a dinâmica da sensação de abandono nas áreas rurais.

Ora, entre o abandono rural e a ansiedade urbana face ao "outro", o eleitorado não-militante tornou-se ávido de vozes de protesto. É por isso que a explicação racista como fundamento único para a adesão à direita radical é insuficiente, porque o "eles" e "nós" nem sempre é relativo à imigração, aos refugiados, às minorias ou ao Islão, é muitas vezes sobre cidade/campo, povo/elite, divisão clássica populista e fascista que procura mobilizar a precariedade para tomar o poder.

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