Köln, uma quase etnografia de viagem.
A cidade tem o seu charme mesmo não sendo bonita diz-me J., que vive em Bonn mas todos os dias aporta a Köln para trabalhar na muito histórica Universität que nos seus vários pólos anima a velha colónia romana. A Segunda Guerra Mundial ou simplesmente "a guerra" nas suas palavras num português com o açúcar do Rio de Janeiro, vincando fortemente o peso que o período nazi teve e ainda tem na memória coletiva alemã, fez do tecido urbano de Köln um emaranhado de história e apressada reconstrução. Estas paredes-meias entre passado e presente abraça-nos ainda no aeroporto onde a muito moderna construção que demonstra o rigor e o pragmatismo alemão - categorias que o discurso comum guarda desde os primeiros Mercedes - no seu teto metálico lembrando uma fábrica onde a componente humana é tão necessária quanto os painéis eletrónicos que nos indicam as portas de embarque, o check-in, ou as vozes que de cinco em cinco minutos nos recordam recomendando que não abandonemos as malas. Os comboios e o metro impõem-nos um horário preciso, em Köln não se compram bilhetes mas antes se adquirem viagens para uma hora exata. Pragmatismo e programação.
Os portugueses que vão chegando abeiram-se uns dos outros em busca de apoio e orientação quando a língua é uma fronteira muito clara. M., experimentada nas viagens por terras alemãs e fluente na língua vai cumprindo o papel de encaminhamento. Está por ali com a frequência que o trabalho de curadora lhe exige, ela que expõe a rota da seda em terras da cerveja. No entanto, pode-se sempre contar com uma voz portuguesa aqui e acolá, disposta a ajudar pelo afeto da língua, afinal "dois dedos de conversa e uma ajuda não se nega a um português", bem diz A. que se anima na portuguesidade que se troca e a que se abeira uma jovem brasileira em trânsito para Düsseldorf. Há sempre uma dúvida para tirar.
O preço dos transportes é elevado, 1,90€, compensado pelo caráter gratuito para os estudantes e um acompanhante, depois das dezoito horas. Portanto, se ir para a Universidade pode custar dinheiro, voltar é gratuito, o que confere à Köln Universitária, que se roda em torno da Albertus-Magnus-Platz, um espírito de divertimento que cobre a noite sem chegar à madrugada. O número considerável de bares porta sim porta sim na Zülpicher straße lembrarão a qualquer lisboeta o Bairro Alto quando o dia se deita. Garrafas vazias amontoadas aqui e ali, um homem que se ajeita na bicicleta com mais garrafas do que mãos, porque beber cerveja é tão imperativo quanto respirar, e enquanto há quem coma no Habibi, há quem se junte em torno de uma banda de rua que canta canções a pedido e com um coro de improviso.
Limitada pelo tempo que não permite atravessar uma cidade que se perde de vista, esta é uma micro-etnografia, ao sabor de quem percorre o caminho que vai do Hauptgebäude, o prédio principal, da Universität zu Köln com os seus campos relvados onde se misturam as garrafas de cerveja, os namorados ao sol, o futebol improvisado com mochilas num verdadeiro universal cultural e as bicicletas que enchem a cidade, porque pedalar é gratuito e Köln que se estende na horizontal é propícia ao exercício romântico de fazer da cidade um lugar com menos carros e com um metro menos apinhado, até à imperial Dom, a Catedral de Colónia com os seus mais de 700 anos de história e uma majestade gótica arrebatadora.
Há igrejas imponentes, bares, restaurantes e um urinol público que mostra mais do que esconde num inesperado confronto com a dimensão mais humana no traçado urbano. Se ao redor da Catedral se sente o turismo, o mesmo não se pode dizer da demais trajetória. Köln não é pensada para o turismo mas para ser germânica, para consumo interno, para o corrupio das vidas próprias. Não há informações em inglês, nem lojas de souvenirs, as recordações de Köln são as fotos e a experiência. O Neumarkt com as suas lojas de roupa de universais marcas, com vendedores de flores, músicos de rua, vendedores de bugigangas e pedintes, vendedores de jornais e polícias, fervilha de vida, de uma vida que é tão real quanto distante do ideal germânico de progresso e prosperidade. Köln demonstra que a poderosa Alemanha é uma narrativa político-ideológica e não produto de uma sociedade equitativa.
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