E agora, Pequena Bretanha?


Tanto o mito da grandeza quanto da autossuficiência britânicas foram construídos sobre alicerces de barro. O “orgulhosamente sós” da “Ilha” só funcionou, enquanto ideologia nacionalista, enquanto foi possível sustentar o isolacionismo à custa dos recursos das colónias. O próprio orgulhoso exército britânico foi-o, em boa medida, à custa das vidas apagadas daqueles que vieram da Índia e demais colónias. Mas a Grã-Bretanha (leia-se a Inglaterra) jamais se dispôs a se confrontar com a sua história, com o facto de que a sua riqueza e grandeza se edificou por meio do seu imperialismo. Como os demais países envolvidos no tráfico de escravos, plantações e colonialismo, jamais aceitou que a sua posição atual se deve, sobretudo, à sua circunstância exploradora. A crença num dever civilizador serviu de legitimação às práticas colonialistas que ainda vigoram como princípio identitário britânico.


Esse esquecimento intencional é responsável pela edificação de uma memória coletiva idealizadora da britishness. Mas o colonialismo, além do enriquecimento ilícito à custa da soberania e autodeterminação alheias, tem a outra face desconfortável para o colonizador: os povos colonizados são doutrinados no orgulho de uma pátria ausente que acabam por buscar. A estes juntam-se os povos dos mais variados lugares que procuram em Londres e outras áreas urbanas uma oportunidade no país de Sua Majestade. Com todo este fluxo humano o ressentimento anti-imigração foi crescendo, aproveitado pela extrema-direita que passou a operar numa lógica “nós contra eles” em defesa da classe operária branca, que estaria a ser estrangulada pelos imigrantes que esgotariam os recursos. Com esta narrativa chegaria o Brexit e as políticas de fecho de fronteiras e restrição aos vistos de residência. Agora há fruta pelo chão, porque não há imigrantes para a apanharem. Há peixe por exportar, porque já não há políticas de exportação para a União Europeia, há bens de primeira necessidade por chegarem aos supermercados, assim como combustível por transportar, porque não há camionistas imigrantes, há falta de auxiliares nos hospitais, porque não há auxiliares imigrantes, há falta de pessoal para a restauração e para as limpezas, porque não há imigrantes, e há impostos a aumentar, porque não há contribuintes imigrantes como havia.


 

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