Alô, alô, cancelamento?

Numa recente entrevista, uma das atrizes da série de humor britânica "Alô, Alô", queixou-se de que a mesma estaria a ser destruída. O enfoque pós-material que enforma as «guerras culturais» traduz-se num patrulhamento puritano do espaço público, que visa purgar a sociedade. À direita combate-se o «politicamente correto», categoria acusatória que se traduz no vocábulo "já não se pode dizer nada". Esse politicamente correto corresponde, na verdade, à defesa da dignidade integral dos sujeitos. No entanto, quando levada a um patamar puritanista pretende cancelar qualquer desvio da norma progressista, perdendo, assim, a dimensão pluralista que formava o background do progressismo pós-material. É assim que encontramos o paradoxo de reality shows transmitirem cenas de sexo debaixo de lençóis, mas classificarem como ofensivo ou potencialmente ofensivo o conteúdo de uma série de humor icónica. O machismo e a estereotipia são os ingredientes essenciais de "Alô, alô". É, sem dúvida, sintoma de enorme paternalismo woke considerar que as pessoas precisam de um aviso purista para saberem distinguir conteúdo humorístico, historicamente situado, com incentivo a uma masculinidade tóxica e ao patriarcado.
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