A Democracia ficou com um melão?

A desigualdade agravada pela crise de 2008 e anos seguintes e agora pela pandemia e a guerra na Ucrânia, tem um papel fundamental na produção de um ressentimento e mal-estar social. Ou seja, questões materiais permanecem como essenciais na vida política dos Estados, e são elas, em grande parte, responsáveis pela emergência de questões pós-materiais. O ressentimento com imigrantes é produto de uma sensação de que os mais pobres nativos foram esquecidos, mesmo que na verdade os imigrantes sejam essenciais para as economias nacionais.
Desse modo, a registada perda de segurança económica da classe média e a precariedade das classes operárias, quando conjugadas com uma massiva presença do "outro", culturalmente diverso, algumas vezes pouco disponível para acomodação cultural, leva a um turbilhão emocional que procura um escape através de locus de pertença, geralmente por via de sentimentos conservadores e até reacionários. A nostalgia dos anos de ouro da "nação" foi essencial na afirmação dos fascismo do século passado e na eleição de Donald Trump.
A Democracia ficou com um melão? Depende do que se entende por democracia. Se falamos na elementar lógica da maioria, então não. Mas se falamos na Democracia como um regime político baseado em princípios cogentes como separação de poderes, submissão ao estado de direito, direitos fundamentais e garante da pluralidade, então podemos pensar que sim, que provavelmente a democracia ficou com uma Meloni.
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