Eleições Brasileiras 2022

quadro democrático. São outra coisa. São campo de batalha cultural entre lulismo e bolsonarismo, o que configura, desse modo, uma derrota de antemão para o Brasil, encurralado em questões de natureza pós-material. Esvaziado de um patamar de normalidade democrática, a política brasileira é apenas uma versão própria do "ar do tempo", cujo aroma é sobretudo a populismo.
De modo sistemático, o lulismo representa um misto entre a Esquerda clássica materialista que visa a transformação social por via económica, através de diferentes interpretações da luta de classes, almejando, sobretudo, o combate à pobreza num país profundamente desigual, e a Esquerda pós-material identitária urbana, voltada àquilo que a direita radical chama de «marxismo cultural», isto é, uma agenda assente numa visão da sociedade marcada por um binómio opressor/oprimido, não tanto num sentido material, embora detendo forte crítica ao capitalismo, mas numa ótica das diferentes minorias, sexuais, raciais, de género. Ou seja, a esquerda ativista.
Por seu turno, o bolsonarismo representa uma conjugação entre uma agenda económica neoliberal de privatizações, concentração no mercado, defesa dos interesses dos setores agrários e de empresas de exploração dos recursos naturais, e uma agenda também ela pós-material identitária de direita, marcada pelo conservadorismo radical evangélico, pelo securitarismo social (combate à criminalidade segundo a lógica do "bandido bom é bandido morto), pela dimensão anti-minorias, cujas queixas de discriminação são classificadas como vitimização, através de uma leitura individualista e meritocrática da sociedade, pelo combate pelos costumes expresso no anti-aborto. No fundo, trata-se de uma versão brasileira do trumpismo e da direita radical populista europeia, que conflui neoliberalismo económico, conservadorismo moral, teocracia evangélica, saudosismo autoritário (ditadura militar), classista racializada (na medida em que uma parte do seu eleitorado se revê na divisão social por via da raça, em versões modernas de uma divisão entre Casa Grande e Senzala).
Pelo meio surge um despertar da consciência política massificada que é canalizada por meio das redes sociais, canais de divulgação de fake news e radicalismo ideológico. O Brasil está numa verdadeira guerra pelo seu coração, uma vez mais. Isso explica porque a corrupção no tempo do PT de Lula é fator determinante no antipetismo, uma vez que o despertar consciente político não se acompanha de uma literacia política capaz de compreender que a corrupção é endémica e sistémica na política brasileira, não sendo uma invenção do PT. (Aliás, a família Bolsonaro está envolvida em inúmeras suspeitas de corrupção).
Assim, qualquer eleitor moderado está diante de um problema de escolha entre duas versões de messianismo político. Se é verdade que o governo de Lula foi marcado pela corrupção, não é menos verdade que foi um período de políticas públicas que resultaram em redução das assimetrias sociais, criação de novas universidades, maior mobilidade social ascendente, número recorde de jovens pobres e racializados com acesso à educação, políticas educativas voltadas para o conhecimento da história e cultura brasileira nas suas vertentes indígenas e afrodescendentes. Por seu turno, o governo de Bolsonaro não foi capaz de produzir melhorias económicas, estando associado à péssima gestão da crise pandémica da Covid-19, com o negacionismo massivo, com a reversão das políticas educativas e de proteção às minorias e aos direitos fundamentais. É um projeto político falhado que dificilmente captaria um eleitorado conservador clássico, de direita, voltado ao capitalismo, mas com um olhar social.
Seja como for, o Brasil em processo de consolidação das instituições democráticas já perdeu. Resta saber se perdendo ganha alguma capacidade de regeneração com Lula, à falta de alternativa, ou se continua a caminhar em direcção ao abismo, com a política bolsonarista de feição evangélica. E depois do horizonte curto? Onde andam os estadistas?
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