O FUTURO DO BE
Os rumos do Bloco de Esquerda serão ditados pela nova liderança. Nada de pouco óbvio. Mas antes de se saber qual o futuro, vale um balanço. O BE é um caso de sucesso de capacidade de agregar tendências políticas díspares num mesmo partido. No entanto, as tendências são como tecidos costurados em mantas de retalhos - estão unidos, mas destoam. Na tensão das tendências políticas, o BE foi sendo um partido de vagas eleitorais. Cimentado contra o capitalismo e a democracia burguesa (de onde vieram fundadores e figuras relevantes), o sucesso do BE careceu, sempre, de instabilidade social, política e económica, enquanto espaço para o protesto urbano e jovem que não se identificava com o conservadorismo dogmático do PCP. Como qualquer partido de protesto e de feição populista, precisa de crises para se afirmar. A geringonça representou o maior engenho do partido, como processo de influência do poder, e também o seu desgaste público, levando ao cansaço natural da sua liderança.
Ao mesmo tempo, sendo um partido de tendências, é um prédio com fissuras, das quais nasceram o Livre, mais europeísta, ecologista e operante dentro do capitalismo, como a versão moderna da Esquerda, e o MAS, ligado aos profissionais de educação e aos revoltados com a cedência ao centrismo.
Não temos a certeza de quem irá liderar o partido, mas parece evidente que não deverá manter o partido ao centro, sob pena de ficar colado ao PS. Mas só isso não chega para afirmar novos rumos. Um partido pensado como de vocação ecologista e jovem, é parte, sim, da sua identidade, mas deixa-o próximo ao Livre. A radicalização nas lutas laborais e no protesto é igualmente algo que lhe é natural, mas só por si é um espaço já do MAS e do PCP. Assim, o BE deverá tentar voltar a costurar tendências, mantendo o enfoque das causas identitárias, voltando a ser um partido de protesto e de uma ecologia contra o capitalismo. É provável que engula o MAS e roube eleitorado ao Livre. No fundo, recuperando parte de membros seus, mas deixando o flanco direito entregue ao PS, o qual poderá dar a mão a Rui Tavares como muralha à sua esquerda. O que não será novidade.
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