PASSOS DE COELHO E AS SOMBRAS DE UMA PÁSCOA PASSADA
Cada vez que Pedro Passos Coelho surge há uma atmosfera de nevoeiro, nostalgia e sebastianismo que emerge. O PSD vive órfão de si mesmo, sendo o mais sebastianista dos partidos políticos portugueses, sempre à espera do líder que o fará retornar ao poder. A morte trágica e prematura de Francisco Sá Carneiro deu um decisivo contributo, considerando a sua faceta "basista", que o tornava um líder mais popular do que elitista, num partido historicamente associado às elites económicas e sociais. É, precisamente, a sua dimensão de partido dos "patrões", das reformas como sinónimo de cortes, a sua dificuldade de se manter no eixo da social-democracia, sendo sobretudo liberal-democrata, que o torna um partido com difícil capacidade de mobilização social e potencialidade eleitoral. Nesse sentido, o PSD para vencer eleições precisa, sobretudo, que o PS atravesse um período de incapacidade de gestão, algum escândalo ou cansaço governativo.
Ora, depois do período José Sócrates, o PSD entrou no governo, manietado pelo memorando de entendimento com a troika, que impunha um programa de governo* em troca de fundos. O problema não foi, evidentemente, a necessidade de cumprimento do memorando, mas antes a forma como se transformou essa obrigação num programa ideológico - "ir além da troika" -, com cortes pensados como definitivos, com supressão de feriados, que tinham por base uma ideia de que o mercado deve funcionar na ótica da exploração para se revelar competitivo. O ressentimento atingiu níveis históricos, levando a um crescimento dos partidos de esquerda radical, BE e PCP. As eleições legislativas que levaram à formação da "geringonça" são erradamente lidos pelo PSD como uma vitória clara do programa de Passos Coelho, quando a realidade é outra: a direita venceu coligada, numa altura em que o Chega não existia e todo o ressentimento tinha sido canalizado para a Esquerda radical, e a memória de José Sócrates estava ainda viva no eleitorado. Por tal razão, o PSD não teve nenhuma vitória retumbante, pelo contrário. Assim, não se compreende a orfandade de PPC que o partido vive (não obstante a ética e patriotismo que o norteiam). O programa ideológico do seu governo está hoje na IL. O CDS está quase extinto, estando a feição mais radical e populista da direita no Chega. Ao mesmo tempo, num país onde a grande maioria do eleitorado está nos funcionários públicos e pensionistas, a memória de Passos Coelho não é saudável em tais eleitores. Isto significa, portanto, que o PSD continua com uma enorme dificuldade em ler a realidade do país.
* no entanto, o incumprimento, por exemplo, do drástico peso das ordens profissionais no acesso às profissões é sintoma da forma como o PSD se manteve fiel ao ideal elitista.
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